DISCIPLINA

Apreensão da Cidade Contemporânea – 2009.2

Profa. Alessia de Biase (professora visitante PVE/CAPES- arquiteta, doutora em antropologia)

Professora da École Nationale Supérieure d’Architecture de Paris Belleville (ENSAPB) e coordenadora do LAA/ENSAPLV

Colaboração de Paola Berenstein Jacques (PPG-AU/FAUFBA)

Disciplina PPG-AU/FAUFBA


Ementa

Diferentes formas de se ver um território, uma tomada de consciência de que um espaço, um território ou uma cidade não existem em absoluto mas são resultados daquilo que as pessoas fazem, pensam, imaginam e agem nestes. Um espaço é fabricado mas é também “habitado”, quer dizer, vivido, experimentado, imaginado, usado, estragado, evitado, apreciado, etc.


Objetivos

Este tópico especial será a ocasião de propor, mas também de construir, de forma coletiva, ferramentas conceituais e metodológicas para se aproximar e apreender a cidade contemporânea, em particular a partir de experiências e pesquisas já realizadas em Paris. A partir de vários estudos de caso, trabalharemos no sentido de compreender como podemos, do ponto de vista antropológico, pensar hoje nas articulações de diferentes escalas de espaço e tempo, e na busca de um escala pertinente de interpretação e de ação na cidade.


Metodologia

A abordagem do tópico especial proposto se situa dentro do debate levantado pela antropologia dos mundos contemporâneos sobre a importante distinção entre “antropologia da cidade” e “antropologia na cidade” (Augé, 1994, Agier, 1999). Esta última mais conhecida como antropologia urbana, trabalha principalmente com grupos sociais e étnicos na cidade, analisando-os de maneira ‘clássica’, ou seja, segundo a poética do “estudo intensivo em uma área delimitada” (Stocking, 2003), e assim produz “estudos de comunidade”. Neste sentido, a cidade, a arquitetura ou o território e a paisagem se tornam simples cenários dos fenômenos a serem explorados. A antropologia da cidade, ao contrário, considera a cidade na sua totalidade, quer dizer, na sua forma real, material, imaginária e discursiva. Esta abordagem, que adotaremos neste curso, faz da cidade não somente o local das interações de um grupo estudado, mas nosso objeto de estudo privilegiado.

O processo de construção da cidade, do projeto urbano ou territorial dos urbanistas até às estratégias de apropriação do espaço por parte dos habitantes, se tornam então nossa matéria prima para a antropologia da cidade contemporânea. Traduzir os processos, compreender os mecanismos e pensar na maneira de mostrá-los (Taussig, 2005) deverá ser o fundamento de uma abordagem antropológica que nós buscaremos neste curso. Como se constroe a cidade? Como podemos apreendê-la e restituí-la? Estas perguntas nos interessam pelas materialidades que elas impõem, não somente aquelas de nosso objeto de estudo privilegiado, a cidade, mas também aquelas que dizem respeito à postura do pesquisador: as ferramentas de pesquisa.

Apresentaremos uma abordagem “pós-disciplinar” da cidade, através de estudos de caso de pesquisas já realizadas, o que nos parece um meio necessário para atingir sua complexidade. Uma compreensão pós-disciplinar de pesquisa implica a construção de um interação entre pesquisadores que são capazes de adotar o ponto de vista e as regras dos outros (Wallestein, 1996, Joas et Camic, 2004, Joas, 1999). É quando os pesquisadores são capazes de agir usando os “óculos” do outro para observar fenômenos sociais, que a “pesquisa adota uma poética própria” (Brady, 1991).

Esta postura permite também não perder de vista o objeto urbano ou arquitetônico frente aos “escorregões” disciplinares que às vezes levam a uma “amputação” do diálogo com as outras disciplinas ao impedir a contrução de um diálogo comum. Esta situação não é fixa, está em movimento constante, busca explorar diferentes possibilidade de descrever, representar e analisar a cidade contemporânea hoje com a ajuda de ferrramentas clássicas e novas, vindas de diferentes disciplinas, cada vez utilizadas en função das circunstâncias de cada pesquisa (da cartografia ao documentário, passando pela entrevista, o hipertexto, etc).


Organização das sessões

As sessões buscarão, através de estudos de caso de pesquisas realizadas, mostrar a complexidade de uma cidade como Paris, se focalizando sobre as relações entre processos materiais, que as transformam, e nos discursos que participam dessas transformações em diferentes momentos.


Conteúdo programático

(clique nas sessões para ver as pesquisas relacionadas)

Sessão 1 (12/08) – Abecedário: ou como construir ferramentas conceituais entre as disciplinas

Sessão 2 (19/08) – Grand Paris: ou como imaginar o futuro de uma metrópole global

Sessão 3 (26/08) – Apreender o desaparecimento: ou como trabalhar com o tempo logo (longo prazo)

Sessão 4 (02/09) – Cartografar o habitar: ou como representar hoje a urbanidade

Sessão 5 (04/09) – As grandes torres: ou como articular as escalas do olhar


Referências Bibliográficas

Agier M., L’invention de la ville, Paris, Editions des Archives Contemporaines, 1999.
Augé, M., Pour une anthropologie des mondes contemporains, Aubier, 1994.
Brady, I. (Ed.), Anthropological Poetics. MD: Rowman and Littlefield, 1991. 410 pp.
Joas, H. et Camic, Ch. (Eds.), The dialogical turn. New Roles for Sociology in the Postdisciplinary Age. Lanham, MD (Rowman and Littlefield) 2004.
Joas, H., “Postdisciplinary Histories of Discipline” dans European Journal of Social Theory 2 (1999), no.1, pp. 109-122.
Latour, B., “Paris ville invisible: le plasma”, entrée pour le catalogue de l’exposition Airs de Paris, 30 ans du Centre Pompidou, sous la direction de Christine Macel, Daniel Birnbaum, Valérie Guillaume, ADGP, Paris, 2007, pp. 260-263.
Stocking, G. W. Jr., “La magie de l’ethnographe. L’invention du travail de terrain de Tylor à Malinowski”, in Céfaï, D. (dir.), L’enquête de terrain, Paris, Editions la découverte / M.A.U.S.S, 2003.
Taussig, M., Law in a lawless land: Diary of a limpieza in Colombia, University of Chicago Press, 2005.
Wallerstein, I., Ouvrir les sciences sociales. Rapport de la Commission Gulbenkian pour la restructuration des sciences sociales. Paris: Descartes & Cie, 1996, 117 p.