Doutorado

A Bauhaus e a cidade moderna: por uma genealogia do corpo útil

Ramon Martins da Silva

Propomos pesquisar e analisar a Bauhaus, este recorte da modernidade de 1919 a 1933, a propósito de seu centenário de fundação no ano de 2019, por uma perspectiva histórico-filosófica, interdisciplinar e inclinada à metodologia genealógica (FOUCAULT, 2018), a pensarmos sua implicação na cidade moderna e o agenciamento de corpos úteis a partir das transformações dos regimes estético-políticos e do ensino do projeto e da construção modernos. Através de um pensar que se desloca por montagens (JACQUES, 2018), intentamos problematizar e complexificar a correlação entre os argumentos e práticas da escola com a emergência da cidade moderna e com as dinâmicas da movimentada vida urbana referente à transição de século (XIX-XX), no esforço de apontarmos ambivalências, contradições e possíveis fraturas inerentes aos seus discursos e práticas, nem sempre iluminadas pelas narrativas mais hegemônicas nos campos da história da arte, da arquitetura e do design. Partimos do pressuposto de que por transformações nos regimes estético-políticos estejamos também a tratar de transformações do próprio corpo sensível e, assim, movemo-nos na expectativa de confrontarmos as ideias manifestadas pela Bauhaus e suas práticas com as teorias críticas da modernidade no tocante à produção de corpos. Sobretudo as teorias que nos auxiliam a tratar desta modernidade de transição de século e primeira metade do século XX como aquela que, mais do que ser espaço/tempo das transformações nos regimes estético-políticos em função dos novos mecanismos tecnológicos trazidos pelas capacidades industriais, é fundamentalmente fenômeno a concatenar reformulações ontológicas e a movimentar as estruturas sensíveis do corpo e da sua experiência com a materialidade que o cerca.

Falamos da modernidade, portanto, do ponto de vista da construção do corpo útil e apto à disciplina do trabalho estimulada pelos paradigmas da cidade industrial, emergentes dos processos de revolução nos modos de produção que alteravam drasticamente a vida, a experiência nas cidades e atravessavam o corpo sensível de seus caminhantes. Em um primeiro sentido, a modernidade compreendida através do empenho de construção dos corpos coerentes aos processos de revolução nos modos produtivos já desencadeados desde o século XVIII, com os debates críticos de Michel Foucault (2018) sobre a disciplina e o governo biopolítico dos corpos enquanto instrumentalização da cidade e da vida moderna. Também com a crítica à modernidade de Hannah Arendt (2014) que se sustenta pela despolitização do homem com a vitória do animal laborans sobre o homo faber, isto é, quando o homem deixa de ser figura ativa na construção de mundo e fabricante produtor de objetos de uso duráveis e passa a ser definido como trabalhador empenhado na atividade repetitiva, laboriosa, da produção de bens de consumo imediato destinados à manutenção da sua subsistência e da reprodução seriada da vida. Em um segundo sentido, a modernidade compreendida pelo viés das transformações sensíveis da experiência do corpo perceptivo e psíquico diante da fruição dos novos ideais de vida urbana que se desenhava, com as teorias críticas de Georg Simmel, Siegfried Kracauer e Walter Benjamin. Com estes sentidos implicados e enredados, buscamos confrontar a Bauhaus com a compreensão da produção de um corpo que, pelo choque da modernização, torna-se individualizado, mecanicamente organizado e coerente às lógicas dominantes da produção e da sociedade capitalista industrial. Um corpo-peça que se orienta a movimentar a engrenagem das próprias transformações socioculturais, existindo conforme gestos e comportamentos prescritos pelas ditas formas modernas, com seus modos de existir formulados, treinados e reproduzidos em série.

Também, movemo-nos a pensar de que forma as discussões expressionistas exercem fundamental importância à emergência da escola, assim como o De Stijl passa também a se atrelar às propostas da Bauhaus de recriação da vida pós Primeira Guerra Mundial. Discutimos sobre como as mudanças de ordem estético-política relacionadas aos campos prospectivos da arte, da arquitetura, do urbanismo e do design desdobram-se em reconstrução contínua de corpo. Problematizamos os modos com que nossas ações prospectivas de futuros nestes campos do saber e do fazer são também prospecção de corpo, pelo engendramento de gestos, modos de existir e hábitos, por meio principalmente das novas formas e enunciações postas a todo momento em circulação nas partilhas do sensível (RANCIÈRE, 2009), tanto no contexto de modernidade de primeira metade do século XX quanto contemporaneamente. Deste modo, buscamos entrever sentidos históricos, filosóficos, antropológicos e sociológicos, que nos possibilite nebular (PEREIRA, 2018) o conhecimento sobre a Bauhaus levando em consideração criticamente o próprio contexto histórico das transformações da modernidade. Quando a escola assume como diretriz tornar aptos construtores e projetistas ao desenvolvimento da materialidade adequada aos paradigmas de uma “nova vida moderna”, parece- nos evidente a consideração de que por meio desta tarefa é agenciado também um corpo sensível devido, útil, conveniente, compatível com aquilo que é levantado como proposta de refundação da modernidade pela Bauhaus, formulação de um novo ideal de um viver moderno.

Pretendemos pensar na hipótese inicial de que os esforços da Bauhaus, por meio das atividades de ensino, constituem um agenciamento de corpo por dois sentidos inteiramente implicados. Primeiro, do fazer-corpo pela perspectiva da produção material, do trabalho, entendemos a Bauhaus a exaltar a aliança entre homem e máquina, a autonomia do artesão diante dos processos produtivos, o domínio das técnicas industriais e dos novos equipamentos pela figura do projetista, indicando-nos o reconhecimento das capacidades da máquina mas não sua priorização em relação às potencialidades sensíveis do corpo que trabalha. A escola emerge a tratar da reformulação dos modos produtivos a partir da denúncia de que a drástica substituição das técnicas artesanais pelas industriais, no cenário de pós Revolução Industrial, sabotavam o potencial criativo e singular do corpo trabalhador, mecanizado no ritmo da produção industrial. Compreendemos neste primeiro sentido a tentativa de se recriar o corpo do próprio trabalhador moderno; um fazer-corpo a engendrar o modus operandi de um trabalhador que alia as belas artes às artes aplicadas, a tensionar a figura do artesão e do projetista. Conforme Gropius (2015, p. 27) em texto de 1937 afirma sobre a pedagogia bauhasiana: “[…] o nosso objetivo mais nobre é o de criar um tipo de homem que seja capaz de ver a vida em sua totalidade, em vez de perder-se muito cedo nos canais estreitos da especialização. Nosso século produziu milhões de especialistas; deixem-nos agora dar a primazia ao homem de visão”.

Segundo, do fazer-corpo pela perspectiva da utilização da materialidade construída e da fruição da própria vida moderna, visualizamos nos discursos da escola a crença de que por meio da produção das formas utilizáveis possa se interferir e se afetar diretamente a existência do corpo, a apontar-nos o entendimento de que a forma específica dos objetos, da casa ou mesmo da vizinhança, prescreve gestos, modos de usar, incita hábitos, comportamentos e orienta o próprio existir no espaço. A Bauhaus emerge a calcar-se na aproximação entre arte e cotidiano e conforme a expectativa salvacionista de uma “arte útil”, na proposição da usabilidade e utilidade das formas modernas. Quando visualizamos as práticas da escola abarcando o desenho relativo às diferentes escalas de projeto – desde a escala do desenho industrial (os mais simples utensílios de cozinha e a mobília de cada cômodo de uma casa), a passar pela escala da construção civil (a própria arquitetura da casa e dos edifícios), até ampliar a dimensão de projeto à escala urbana (com atenção especial à habitação mínima e à relação das casas sobre o espaço, e aqui destacamos reverberações dos debates sobre arquitetura moderna suscitados pelas ideias das primeiras edições do CIAM) – compreendemos neste segundo sentido a tentativa de se engendrar um corpo relativo à sua domesticidade no ambiente em que ele habita. Entendemos, assim, que possamos estar a tratar das práticas da escola também do ponto de vista de uma existência doméstica, domesticação dos corpos. Em ambos os dois sentidos deste fazer-corpo, supomos relação com a concepção de projeto que Argan (1992) afirma fundamentar as práticas do fundador da escola Walter Gropius, de que projetar o espaço e as formas seja projetar a própria existência, as dimensões do corpo sensível em relação aos usos do espaço.


REFERÊNCIAS

ARENDT, H. A condição humana. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.
ARGAN, G. C. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2018.
GROPIUS, W. Bauhaus: novarquitetura. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2015.
JACQUES, P. B. Pensar por montagens. In: JACQUES, P. B.; PEREIRA, M. S. (org.). Nebulosas do pensamento urbanístico: tomo I – modos de pensar. Salvador: Edufba, 2018.
PEREIRA, M. S. Pensar por nebulosas. In: JACQUES, P. B.; PEREIRA, M. S. (org.). Nebulosas do pensamento urbanístico: tomo I – modos de pensar. Salvador: Edufba, 2018.
RANCIÈRE, J. A partilha do sensível. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009.


Palavras-chave: Bauhaus. Corpo útil. Cidade moderna.


Orientadora

Paola Berenstein Jacques

Período

2019-atual