Doutorado

Imaginação e recreação infantil: Relações entre ideário político, política e prática urbanística no Brasil entre 1930-1960

Igor Gonçalves Queiroz


Mário de Andrade, as Bibliotecas e Parques Infantis, São Paulo, 1935-1938

O poeta, romancista, professor de música, crítico de arte e pesquisador Mário de Andrade foi também servidor público. Juntamente com os intelectuais Paulo Duarte e Rubem Borba de Moraes, participou ativamente da construção do projeto do Departamento de Cultura e Recreação da Municipalidade de São Paulo, concretizado em 1935 na gestão do prefeito Fábio Prado. Mário via no acesso à cultura de elite um meio eficaz de suplantar o atraso intelectual e político dos mais pobres. Uma das primeiras providências tomadas pelo Departamento foi o estudo da conformação urbana do município, por meio de pesquisas sociais e etnográficas que detectassem problemas na alimentação, moradia e educação da população. O projeto previa a construção de bibliotecas infantis, bibliotecas populares de bairro e as “Bibliotecas Circulantes”, instaladas em caminhonetes e que partiam em busca do público. Mas foi a partir do Parque Infantil Pedro II, que se ampliou a ideia de fundir educação e lazer infantil na cidade, visando o pleno desenvolvimento das crianças, acompanhado por profissionais especializados, professores, educadoras sanitárias, pediatras, nutricionistas e instrutoras de jogos.


Raquel Prado, “O Urbanismo e a Criança”, Rio de Janeiro, 1941

Durante o I Congresso Brasileiro de Urbanismo, realizado no Rio de Janeiro em 1941, uma das teses apresentadas intitulava-se “O Urbanismo e a Criança”, da jornalista e escritora de literatura infanto-juvenil Raquel Prado. Pelo teor das principais Conclusões do Congresso, destaca-se a presença desta tese, por reforçar a imagem de um congresso de fato interdisciplinar, por se tratar de uma escritora de literatura infantil falando aos arquitetos e urbanistas, ao passo que esta reafirma as principais dimensões do urbanismo higienista, defendidas naquele evento e em vigor naquele período. O texto refere-se aos processos de puericultura e eugenia necessários para a salvaguarda da infância brasileira, alinhando as diretrizes do Estado Novo às condições urbanas de moradia da população mais pobre do Rio de Janeiro. Sua tese é legitimada pela “concepção urbana infantil” de uma cidade para os pobres, imaginada por um garoto de nove anos: “O menino urbanista, na sua ingenuidade, cuja singeleza de linguagem é difícil reproduzir – concebeu a sua ‘cidade dos pobres’ sob os aspectos sociológicos-urbanísticos – higiene, conforto, saúde, prodigalidade, educação e estética.” (PRADO In: ANAIS…, 1941, p. 410)


Jayme Martins, “Tia Margarida vai a Brasília: história para alguém contar às crianças”, 1959

Em 1959 é publicado pelo IBGE “Tia Margarida vai à Brasília: história para alguém contar às crianças”, do escritor Jayme Martins. Enquanto a novíssima Capital do país ergue suas colunas delgadas e elegantes, sua história já está sendo contada de forma assumidamente ficcional, numa correlação clara entre a oficialização da história e o desenvolvimento proposto como programa nacional do governo. O livro destinado “[…] às crianças do Brasil, mostrando-lhes como os homens de fibra lutam e vencem […], pleno de poesia, repleto de glória, com emoções a cada instante e ensinamentos sobre a Nova Capital que surge em pleno sertão brasileiro, como raio de sol entre as moitas floridas, convidando para a festa do progresso do Brasil gigante” (NOVACAP, 1958 e 1959).


Este projeto de tese trata das relações entre criança e cidade na história do urbanismo moderno brasileiro, a partir do modo como este campo de conhecimento interage mutuamente com a construção do ideário de Brasil moderno e em pleno desenvolvimento. Estas relações apresentam-se como possibilidade de crítica aos próprios modelos de urbanismo adotados pelos programas de governo no Brasil e, sobretudo, como potência criativa na produção de uma outra cidade e de outros modos de fazer urbanismo e de narrar sua história.

Como hipótese desta pesquisa, a partir da investigação dos objetos de estudo apresentados anteriormente, pretende-se investigar de que forma, a noção de infância (baseada no controle dos corpos, da imagem da “esperança” ou de um vir-a-ser futuro útil), o campo do urbanismo no Brasil reagiu e contribuiu para a construção dos ideários políticos entre os anos 1930 e 1960, através de políticas e prática urbanísticas, relacionadas ao tema da criança e da infância.

Foram escolhidos, portanto, três diferentes tentativas de construção de ideários modernos brasileiros deste período, a partir da tentativa de manutenção de uma noção moderna, adulta e europeia de infância brasileira, observadas tanto nos projetos das bibliotecas e parques infantis do Departamento de Cultura e Recreação da Municipalidade de São Paulo, chefiado por Mário de Andrade; quanto na cidade higienista para os pobres, idealizada pela criança, na tese de Raquel Prado; e, finalmente, na tentativa de construir um nacionalismo baseado no civismo, no patriotismo e na brasilidade, sugerida e sublinhada pela alusão a episódios e grandes heróis brasileiros, em defesa da mudança e construção da nova capital Brasília, através do livro infantil de Jayme Martins.

É o debate entre estes objetos de estudo que interessa e possibilita questionar e experimentar outros modos de pensar, fazer e narrar a história do urbanismo moderno no Brasil, sobretudo a partir da articulação entre os campos historiográfico, literário e do próprio urbanismo enquanto disciplina. A criança, como possível construtor de articulações entre campos, discursos e práticas heterogêneas, ajuda a romper barreiras, sobretudo em formas já consolidadas da construção historiográfica do urbanismo. Desta forma, o debate acerca do movimento moderno em arquitetura e urbanismo no Brasil se pauta tanto num recorte temporal delimitado (entre 1930 e 1960), quanto no embate (convergências ou divergências; similaridades ou oposições) entre formas de pensar, práticas projetuais, fatos e eventos, chamando a atenção para a circulação sistêmica de dados entre determinados círculos urbanísticos, construídos e constituídos também por profissionais de outras áreas de conhecimento.

Assumir a construção historiográfica do Brasil moderno, permite formular algumas questões: Como são contadas essas histórias? Quais ferramentas são utilizadas? Quem as conta? Quais são as reverberações possíveis de narrativas urbanas produzidas a partir de outros campos de conhecimento, sobretudo da literatura, no campo do urbanismo? Porque e como as crianças aparecem nesses projetos de cidade e nos projetos políticos? É possível penetrar na História – como a criança nas suas brincadeiras e fabulações do mundo – e descobrir brechas que levem a viagens fantásticas surpreendentes?


REFERÊNCIAS

CENTRO CARIOCA (org.). Anais do Primeiro Congresso Brasileiro de Urbanismo. Rio de Janeiro, 1941.
REVISTA BRASÍLIA. Rio de Janeiro: Novacap, v. 15 e 27, 1958 e 1959.


Palavras-chave: Criança. Infância. Urbanismo no Brasil. Historiografia.


Orientadora

Paola Berenstein Jacques

Período

2019-atual