Doutorado

Pierre Verger: Retratos da Bahia e Centro Histórico de Salvador (1946 à 1952) – uma cidade surrealista nos trópicos

Washington Luis Lima Drummond

2009

O impacto das transformações urbanas derivadas da industrialização européia mobilizou escritores como De Quincey, Engels, Poe, Baudelaire, Rimbaud, a escreverem sobre a vida urbana. Nos anos 20, o movimento surrealista se coloca dentro desse gênero literário contribuindo para reformular a apreensão da cidade, criando novos conceitos e reapropiando práticas e escritas dentro da tradição que inventaram. As obras Le paysan de Paris, de Aragon, e Nadja, de Breton fazem de Paris o tema de seus relatos. Os autores expandem o tema, marcando a maneira de descrevermos as metrópoles através das deambulações por lugares banais, sensibilidade às ruínas urbanas e parques abandonados, objetos cotidianos em desuso, vitrines de bric-à-bracs, espaços arquiteturais ameaçados de desaparecerem e um encantamento que emana desses lugares. Aproximam-se do fotógrafo Atget, que sem o espalhafato das vanguardas, constrói no anonimato as diretrizes da fotografia moderna sob bases semelhantes. Ambos, ao recusarem o mapa oficial da cidade, ostentam uma crítica fulminante ao triunfalismo moderno. Os surrealistas acenam para a importância das ruas como locus dos acontecimentos citadinos, o espetáculo diário que propiciam e o poder de nos surpreender. Na rua surrealista, o acaso desenha seus desígnios em prol do amor louco e da eletricidade erótica que nos assalta ao percorrê-la. Ao chegar na Bahia, nos anos 40/50, o fotógrafo Pierre Verger encontra um grupo de artistas, ao qual incorpora-se imediatamente, que, como os surrealistas, colocam a cidade como centro de suas obras. Verger, Carybé, Amado e Caymmi exploram as ruas, a arquitetura colonial e a cultura negra da cidade do Salvador na contramão do gosto oficial. Desdenham do processo incipiente, mas contínuo, de modernização. O deambular pelas ruas, o fascínio pela vida urbana prestes a desaparecer, as ruínas arquitetônicas do centro histórico, a iluminação profana, antropológica, suscitada pela cultura negra. Embora, a forma estética não se assemelhe ao surrealismo clássico, as idéias chaves que determinam a apreensão da cidade são comuns aos dois movimentos. Pierre Verger, ao publicar Centro Histórico de Salvador (1989) e Retratos da Bahia (1990) sobre Salvador, elabora uma sofisticada apresentação da cidade, inspirada no surrealismo em pleno trópico. Utilizando a teoria teatral da cenografia, centrada na criação do conceito de dispositivo cenográfico, procuramos analisar seus diversos procedimentos que compõem visualmente a cidade e os dois momentos de sua utilização. O primeiro, quando da produção e recepção das fotografias de Verger, e o segundo, quando de sua apropriação em plena espetacularização da cidade. Ancorado na teoria da história benjaminiana/foucaultiana, movemos uma interpretação crítica quanto aos dois momentos, sem esquecer a teorização de Benjamin e Debord, sobre a reprodutibilidade técnica e a sociedade do espetáculo, respectivamente.


Palavras-chave: Estética. Fotografia. Cidade. Teatro.


Orientadora

Paola Berenstein Jacques


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