Doutorado

Infantilização e devir-criança na cidade: narrativas do Centro de Vitória, Espírito Santo

Camila Benezath Rodrigues Ferraz

Neste trabalho procuramos construir narrativas do Centro de Vitória em ruptura aos estratos dominantes. Tomamos os conceitos de infantilização e devir-criança e os relacionamos a maneiras de viver e pesquisar a cidade. A infantilização é como uma estratégia da máquina de produção da subjetividade capitalística que retira do indivíduo a autonomia para pensar e organizar a vida*. É uma tentativa de encaixar em estratificações dominantes tudo o que se relaciona ao desejo, à vontade de amar e de criar. O conceito de devir-criança, por sua vez, remete a linhas de fuga, processos de desterritorialização, foco de uma micropolítica que atua pela experiência cotidiana*. A ruptura promovida pelo devir-criança conecta-se com a criatividade e as capacidades de percepção e afeto que a criança possui antes de ser tornada infante – infans, aquele que não fala – e antes de ser modelizada pelos equipamentos produtivos. Acessar o devir-criança se trata, portanto, de entrar no campo da experimentação, das possibilidades, de subverter a lógica adultocêntrica e abandonar a máscara que impõe limites, domestica e desencoraja. Neste sentido, procuramos assumir no trabalho uma postura metodológica incorporada de devir-criança na maneira de pesquisar, manipular e escrever com os encontros na experiência cotidiana na cidade. Encontros aparentemente aleatórios, mas guiados por afetos sentidos no corpo vibrátil do cartógrafo-pesquisador e pela busca de outros devires-criança na cidade. Tais encontros se deram tanto na pesquisa de campo como na pesquisa em acervos documentais particulares e institucionais, físicos ou virtuais. Com eles foi criada uma espécie de banco de dados formado por documentos heterogêneos em suas espécies e datações: fotografias, recortes de jornais, correspondências e publicações oficiais, mapas, projetos arquitetônicos, entrevistas e anotações em diários de bordo. Foi a partir de alguns encontros iniciais que estabelecemos o recorte espacial compreendido pela Rua Sete de Setembro e adjacências. Ao mesmo tempo, ficou claro três marcadores temporais: as duas primeiras décadas do século XX, as décadas de 1960 e 1970 e a década de 2010. Os documentos deste nosso banco de dados não foram tomados como um registro final de determinados eventos, mas como fragmentos que possibilitam interferência e construções de narrativas sobre a cidade. Deixamo-nos afetar pelos documentos encontrados e pelas experiências vividas por nós durante a pesquisa e tornamos o banco de dados material com o qual pudéssemos brincar. Desta forma, dispomos os fragmentos em blocos de contos-montagens-discussão, agrupamentos provisórios. Assim, eles se transformam em peças de um jogo, um quebra-cabeça do qual não se conhece a imagem final e que permite múltiplas possibilidades de combinações e recombinações. Estes blocos de contos-montagens-discussão foram criados segundo temáticas nas quais consideramos haver a presença do devir-criança na experiência cotidiana do bairro. Assim, o bloco “Pulando o muro do Zezinho no fundo do quintal da escola” trata do uso das áreas públicas pelas crianças em devires-crianças; o bloco “Eu vou brincar o ano inteiro nesse carnaval” trata do carnaval e outras manifestações, nas quais ações não normalizadas transformam-se na própria normatização; o bloco “De passo leve pra não acordar o dia” tem como temática a disputa do uso da rua, especialmente dos bares e suas mesas nas calçadas durante a noite. Além disso, o bloco “5… 4… 3… 2…1” abre o trabalho indicando os modos de usar a tese; o bloco “Eu quero é botar meu bloco na rua” apresenta as considerações iniciais, discute os conceitos de infantilização e devir-criança e apresenta a postura metodológica adotada no trabalho; e o bloco “Quando acabar o maluco sou eu” traça algumas considerações finais sobre o trabalho. Relevante destacar que os títulos de cada bloco são trechos de músicas de Raul Seixas. A escolha não é aleatória: em 1978, o músico baiano gravou um vídeo na Rua Sete de Setembro em Vitória, nosso recorte espacial, no qual finge ser ele mesmo e pede esmolas. O vídeo nos remeteu a atividade artística de Raul Seixas a qual entendemos como contrária à infantilização e incorporada de devir- criança, sempre inventando novas formas de não ser classificado e de não sucumbir à subjetividade capitalística. Abrindo cada um dos blocos, apresentamos trechos de um conto no qual Raul-Zito, um agenciamento criança-adulto, procura desvendar o misterioso desaparecimento das pessoas em seu bairro.


NOTAS

* Encontramos o conceito de infantilização especialmente em: GUATTARI, F.; ROLNIK, S. Micropolíticas: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 2013.

** O conceito de devir-criança é encontrado ao longo do trabalho de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Destacamos especialmente: GUATTARI, F. Revolução molecular: pulsações políticas do desejo. São Paulo: Brasiliense, 1985. Também: DELEUZE, G.; GUATTARI, F.. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Volumes 1 a 5. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.


Palavras-chave: Infantilização. Devir-criança. Narrativas. Rua Sete de Setembro.

Orientador

Francisco de Assis Costa

Período

2015-atual