Doutorado

Salvador, cidade animista

Silvana Lamenha Lins Olivieri

“A queda do céu”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, deve ser recebido por nós, os napë, o “povo da cidade”*, como um ultimato. Ou habitamos de outro modo o planeta, ou o céu cairá (já está caindo) sobre nossas cabeças, e todos sucumbiremos. Não por acaso, nas últimas décadas o conceito de animismo foi recuperado pela antropologia e vem despertando interesse crescente para além do campo, apontado por muitos como nossa chance de sobrevivência diante da crise climática e ecológica, e, ao mesmo tempo, de superação do capitalismo. Um debate de extrema relevância, no qual o urbanismo precisa urgentemente se engajar.

Tentando responder ao “recado da mata”, o presente projeto parte do pressuposto de que o mundo “mais que humano” (Abram, 2013) do animismo – um emaranhado aberto, vivo e relacional de seres de todos os tipos, constituído por “forças em perpétuo movimento”, onde “tudo se liga, tudo é solidário” (Hampaté Bâ, 2010), tudo potencialmente tem vida (Ingold, 2013), tudo tem subjetividade (VIVEIROS DE CASTRO, 2006), e tudo comunica (Starhawk, 2018) – pode ser aquilo que chamamos cidade.

Gilberto Freyre, em “Assombrações do Recife Velho”, abordou a “vida sobrenatural” do Recife, que, “pelos seus mistérios, existe, subsiste, persiste desde velhos dias como cidade com alguma coisa de cidade onde o mundo não é só o de homens”. “O fantástico na Ilha de Santa Catarina”, de Franklin Cascaes, é uma coletânea de “causos” das bruxas que assombravam a região da atual Florianópolis, onde “cada pedra, cada árvore, cada praia que forma o teu corpo geográfico vive um mundo estranho de sabedoria cultural e espiritual mágico muito elevado”.

Ambos consideravam a modernização – o “progresso” – uma ameaça a essa cidade “fantástica” e “sobrenatural” que os fascinava. Ainda no século XIX, a instalação da iluminação a gás fora “um golpe quase de morte” no domínio que exerciam as “almas dos mortos, e os lobisomens e mulas-sem-cabeça” sobre as ruas escuras do Recife, lamentava Freyre. Já Cascaes resolveu registrar as “estórias” dos açorianos quando “num dia, demoliram um quarteirão inteiro de casas coloniais para erguerem o primeiro edifício da era moderna da Ilha de Santa Catarina”. Era “o sinal que ameaçava o desaparecimento de todo aquele universo singelo, repleto de poesia e muito mistério”.

Cascaes foi além: via a transformação de Florianópolis numa cidade moderna e turística como um ataque bruxólico, acusando o capitalismo de ter “empresado” a Ilha (apud Caruso, 1989). É uma constatação recorrente entre os indígenas; para Kopenawa (2015), os napê têm as “mentes fincadas nas mercadorias”, o “pensamento cheio de esquecimento e vertigem” e os olhos estragados pelo “pó de cegueira” dos metais, “brisa invisível” que se propagaria nas cidades, “coisa de feitiçaria perigosa”. Quando os habitantes da floresta começam a desejar as mercadorias, são atingidos por esse feitiço, causador de doença e morte.

Adotando a visão do capitalismo como uma feitiçaria maléfica, que abusa a força vital de todos os elementos da biosfera, e do animismo – ou “pensamento mágico”* – como sobretudo uma forma de proteção (PIGNARRE;STENGERS, 2005; KRENAK, 2015; ROLNIK, 2018), este projeto busca também apreender a disputa da cidade por duas lógicas inimigas – a de “desencantamento do mundo” da modernidade capitalista, e a de “reencantamento do mundo” do animismo (Garuba, 2012), naquilo que Ailton Krenak entende como uma “guerra de mundos”. E a cidade em questão é Salvador, onde, pelo menos até meados do século passado, o “sobrenatural” era um “aliado atual, vivo, presente da África contra a Europa” (FREYRE, 1987 [1955])***. Não à toa, Joel Rufino dos Santos a chamou de “cidade animista”.

Oxum ainda mora no Dique do Tororó, mas agora só flutua “de madrugada, em surdina, quando os ônibus, os carros, as ambulâncias e todo o resto da parafernália param de circular e por causa disso ela pode cantar”, não mais um “canto alto e solto”, mas “alto e sincopado” demonstrando “o seu pesar pela invasão ao seu lugar de brincar” (Duarte in: Lody; Martins, 2000). As lavadeiras do Abaeté contavam de um “baticum que se ouvia à noite, uma batida, que tinha lá um candomblé mal- assombrado debaixo da lagoa, e tinha bichos, fantasmas” (Caymmi, 2001), hoje “não se vê mais nada”, não se escuta mais o baticum, sumiram até as lavadeiras. A pedra de São Tomé, que “de primeiro” aparecia de sete em sete anos na praia de Piatã, “depois que a inteligência foi acordando…não sei porque, desapareceu” (GANDON, 2018). A imensa gameleira de Baba Igunnukô sobreviveu à construção da avenida Bonocô, mas acabou confinada numa escola. Por esses e tantos outros exemplos, os mais velhos se queixam de que antigamente “enxistia muita coisa”, mas “hoje não tá enxistindo mais” (Alcoforado, 2008). Que “quebrou o encanto das coisas”, que “a energia ficou muito fraca”****. O mistério ainda continua conosco, humanos do século XXI?


Notas

* “Vocês não são índios. Vocês são napë, criados na cidade, criados no capital, na cidade iluminada“. Depoimento de Davi Kopenawa, disponível no link: https://pib.socioambiental.org/ pt/Dizem_que_a_Terra_Yanomami_é_muito_ grande.

** Enquanto Freud(1913) definiu magia como “a técnica do animismo”,para Stengers (2012)é a arte da “atenção” e da “participação” imanente, quase sem distinção entre os termos. Embora possam se confundir, geralmente utilizaremos “animismo” em referência a princípios onto – cosmológicos, e “magia” (ou “feitiçaria”) quando relativo a saberes, práticas e procedimentos para manejo das forças que animam o mundo, “em si uma coisa neutra que pode se tornar benéfica ou maléfica conforme a direção que se lhe dê” (HAMPATÉ BÂ, 2010).

*** “O branco treme diante das forças misteriosas que os negros comandam”, afirma Mattoso (2003). Para os iorubás, a magia está sob domínio de Exu, o “mestre todo poderoso da feitiçaria” (BASTIDE, 1958), e teria sido este o principal motivo para a elite nagô na Bahia esconder o papel fundamental do orixá, visando a adaptação da tradição africana a uma sociedade ocidentalizada e católica (CAPONE, 2004).

**** Segundo Gandon (2018), é uma constante nos testemunhos dos moradores mais antigos de Itapuã a ideia de que “os encantamentos desaparecem quando não existe mais o respeito pelo lugar no qual eles se manifestam”.


Referências

ABRAM, David. “Um mundo além do humano”. Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v.7, n.2, jul/dez 2013, p.64-95.

ALBERT, Bruce; KOPENAWA, Davi. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

__________. Yanomami, o espírito da floresta. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil / Fondation Cartier, 2004.

ALCOFORADO, Doralice Fernandes Xavier. “O olhar vigilante da floresta”. Boitatá, Londrina, número especial, ago-dez. 2008.

AS GUERRAS DA CONQUISTA. Luiz Bolognesi, Brasil, 2018. Disponível no link: http://portacurtas.org.br/filme/?name=as_ guerras_da_conquista.

BASTIDE, Roger. O candomblé da Bahia: rito nagô. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 [1958].

CAPONE, Stefania. A busca da África no candomblé: tradição e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2004.

CASCAES, Franklin. O fantástico na Ilha de Santa Catarina – vol 1. Florianópolis: UFSC, 2003 [1979].

CARUSO, Raimundo C. Franklin Cascaes: vida e arte, e a colonização açoriana. Florianópolis: UFSC, 1989 [1981].

CAYMMI, Stella. Dorival Caymmi: o mar e o tempo. São Paulo, Editora 34, 2001.

DUARTE, Everaldo. “Religiosidade no cotidiano baiano – o dique do Tororó”. In: LODY, Raul; MARTINS, Cléo (orgs.). Faraimará – o caçador traz alegria: Mãe Stella, 60 anos de iniciação. Rio de Janeiro: Pallas, 2000.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

FREYRE, Gilberto. Assombrações do Recife Velho. Rio de Janeiro: Record, 1987 [1955].

GANDON, Tânia Risério d’Almeida. A voz de Itapuã. Salvador: Edufba, 2018.

GARUBA, Harry. “Explorações no realismo animista: notas sobre a leitura e a escrita da literatura, cultura e sociedade africana”. Nonada: Letras em Revista, Porto Alegre, vol.2, n.19, p. 235-256, out. 2012.

HAMPATÉ BÂ, Amadou. “A tradição viva”. In: KI-ZERBO, Joseph. História geral da África. Brasília: UNESCO, 2010.

INGOLD, Tim. “Repensando o animado, reanimando o pensamento”. Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 7, n. 2, jul/dez, p. 10-25, 2013.

KRENAK, Ailton. Encontros – Ailton Krenak. Rio de Janeiro: Azougue, 2015.

LUHNING, Angela. “‘Acabe com esse santo, Pedrito vem aí’: mito e realidade da perseguição ao candomblé baiano entre 1920 e 1942”. Revista USP, São Paulo, n.28, mar. 1996.

PIGNARRE, Philippe; STENGERS, Isabelle. La sorcellerie capitaliste: pratiques des desenvoutement. Paris: La Découverte, 2005.

ROLNIK, Suely. Esferas da insurreição. São Paulo: n-1 edições, 2018.

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STENGERS, Isabelle. “Reativar o animismo”. E-flux Journal, n.36, p.1-10, 2012.

THE POSSIBILITY OF SPIRITS. Mattjis Van Der Port, Holanda, 2016. Disponível no link https://vimeo.com/179223913.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. “A floresta de cristal: notas sobre a ontologia dos espíritos amazônicos”. Cadernos de Campo, São Paulo, n.14/15. p.319-338, 2006.


Palavras-chave: Palavra 1. Palavra 2. Palavra 3.


ORIENTADORA

Paola Berenstein Jacques


PERÍODO

2020-atual