Doutorado

Fazendo Ponto: corpo, cidade e práticas sexuais

João Soares Pena

Lembro que antes de ir para Amsterdã, antes mesmo de estudar sexualidade, sempre que eu ouvia Red Light District ou mesmo Amsterdã, o que eu pensava estava majoritariamente relacionado a liberdade, a um povo “mente aberta”, a um lugar onde tudo poderia acontecer, uma atmosfera que exalaria sexo. Era sempre uma imagem positiva que ilustrava um lugar complexo, vívivo, mas também uma imagem tomada pelo consenso. Consenso este reforçado pelas ideias que circulavam sobre Amsterdã, pelas experiências de quem já tinha visitado a cidade. Fazer campo no Red Light District ao mesmo tempo que desmanchou esse consenso, ampliou meus horizontes para compreender melhor a riqueza desse lugar, a diversidade do que lhe constitui e algumas questões que estão em jogo.

O Plano 1012, lançado em 2007, bem como a narrativa que lhe justifica tem como um dos principais argumentos a alta criminalidade existente na Red Light. Em virtude disso, o plano diz objetivar lutar contra as atividades criminais, principalmente o tráfico de mulheres para a prostituição. Isto é questionado por pessoas ligadas à indústria do sexo, incluindo sex workers e administradores de bordéis. As drogas são outra questão que aparece bastante quando interlocutores comentam sobre a RLD nos anos 1970/1980, mas também nos anos 2000. Parece consenso, contudo, que o número de drug dealers diminuiu bastante e que a área conta com mais policiamento e controle via câmeras.

Em termos de constituição da área, tem sido importante o aspecto das ocupações em imóveis desde os anos 1970, onde mora parte dos moradores mais antigos que viveram aí na época da liberação sexual e que parecem ter um especial afeto pelo bairro. De acordo com as conversas e observações, parece haver um senso de vizinhança entre os diferentes comerciantes, moradores, pessoas da indústria do sexo etc., que se conhecem e sentem-se pertencentes ao lugar. Alguns dizem, contudo, que a proximidade com as sex workers era maior antes quando havia mais holandesas ou quando o ritmo de trabalho não era tão intenso. Tempo é dinheiro! Hoje em dia, muitas estão ali apenas para fazer dinheiro, dizem.

Entre os objetivos do plano, dito também por técnicos da prefeitura, seria trazer mais diversidade. Para eles, a área era basicamente composta de bordéis e atividades correlatas, porém esse discurso é questionado por outros interlocutores que afirmam que, como consequência do plano, a área está cheia de lanchonetes e lojas de souvenir – estabelecimentos para servir a demanda do crescente turismo de massa que tem deixado a área cada vez mais cheia. Com isto, o plano parece não ter sido bem sucedido promover a vizinhança para os moradores, mas ao contrário, o turismo tornou-se um problema, uma reclamação constante de moradores que veem a área voltada aos turistas que andam como se estivessem num zoológico, que olham para as sex workers como se elas fossem um macaquinho que está ali para ser observado. Muitas pessoas não buscam os serviços das profissionais do sexo, apenas consomem a imagem produzida pela sua presença no intuito de matar a curiosidade sobre algo que lembramos quase automaticamente quando se fala sobre Amsterdã.

Outra questão que está relacionada ao turismo de massa e a multidão que visita a RLD tem sido uma queixa ou comentário de várias pessoas. Muitas pessoas se comportam como se estivessem em um parque temático, como a Disneylândia. Um parque orientado para o sexo, as drogas e a curtição. Isto também tem sido uma preocupação para a administração pública, a ponto de o departamento de marketing da cidade criar estratégias a fim de atrair “the right type of visitor”, ou seja, aqueles turistas que estejam interessados em outras atrações e que permaneça na cidade por mais que um fim de semana, que não queira ir somente à RLD, que frequente os museus etc. Nesse sentido, o departamento de marketing tem empreendido esforços no sentido de promover e fortalecer outros atrativos, como os museus, os canais, o patrimônio arquitetônico, em detrimento da RLD e seus elementos constituintes. Seria um esforço no sentido de mudar a imagem da cidade, fortemente associada a “sexo, drogas e rock ‘n roll”, e criar uma marca – city branding – de capital cultural ou cidade global? O planejamento urbano aparece como um dispositivo usado para viabilizar as mudanças necessárias para reposicionar Amsterdã no contexto global.

Como resultado do Plano 1012, além de cassinos, sex shops, coffee shops, 128 windows foram fechadas e, de acordo com a prefeitura, outras serão fechadas em breve. A prefeitura decidiu concentrar os bordéis no principal canal, na rua Oudezijds Achterburgwal, o que possivelmente provoque uma maior concentração de pessoas, pois é aí onde estão as “principais atrações” da área. Por vezes, as áreas onde não há windows ou coffee shops são substancialmente mais vazias do que os trechos marcados pela presença das sex workers. Muitos antigos bordéis foram substituídos por outros empreendimentos como lojas de roupas caras, de souvenires, lanchonetes de fast food, restaurantes e bares, estabelecimentos de economia criativa, etc. Há certo consenso sobre um processo de gentrificação na área na perspectiva de interlocutores, endossado por pesquisadores, porém questionado pela prefeitura. Para a prefeitura, toda a cidade de Amsterdã passa por um aumento no valor dos imóveis, cujo problema não seria uma especificidade do De Wallen. Mas, o que dizer da saída da maior parte dos pequenos comércios locais nos últimos anos, dando lugar a serviços focados na demanda turística?

Para pessoas ligadas à indústria do sexo o Plano 1012 não busca lutar contra o tráfico de mulheres e sim livrar-se da prostituição na área. Elas questionam tal medida que, no fim das contas, teria apenas tirado o local de trabalho das sex workers, empurrando-as para a ilegalidade. Em certa medida, a diversidade supostamente buscada pelo plano é questionável, pois uma breve caminhada pela área revela uma clara predominância de lojas se souvenir e lanchonetes. A prefeitura, inclusive, parece reconhecer isto, pois vai passar a não permitir a abertura de outros estabelecimentos voltados turistas. Contudo, muitas pessoas, apesar de não concordarem com o plano, com seus objetivos e resultados, afirmam que alguns aspectos na área estão melhores do que antes, tais como a segurança – com o aumento do policiamento, do monitoramento via câmeras e da redução do número de drug dealers – e a limpeza das ruas.

Ao longo da trajetória da política de prostituição na Holanda percebemos que há distintas percepções acerca da temática, variando de acordo com os padrões vigentes, com os interesses em voga etc. As recentes mudanças encabeçadas pelo plano sugerem que, apesar de descriminalizada e regulamentada, a prostituição passa a ser encarada de outra maneira e parece não se enquadrar nos interesses atuais da/para a cidade.


Palavras-chave: Amsterdã. Red Light District. Planejamento urbano. Prostituição. Trabalho sexual.


Orientador

Pasqualino Romano Magnavita

Período

2015-atual