Doutorado

Holofotes, blackouts e opacidades: a narração da noite na cidade e no urbanismo

Osnildo Adão Wan-Dall Junior

Resumo

O tema da investigação é o fenômeno da noite urbana, considerada como um processo ficcional engendrado pela complexa coexistência narrativa de enunciados, discursos e práticas que produzem cidade. Defende-se a hipótese de que a noite tem sido compreendida, desde os ideais iluministas, por pelo menos três imaginários imbricados, simultâneos e anacrônicos: do mistério, do medo e do espetáculo. Sendo a iluminação artificial uma tecnologia que não somente regula, mas também diz a noite, cada um desses imaginários é associado a um espectro de luz, a saber, os holofotes, os blackouts e as opacidades urbanas, respectivamente. O mistério denota o fascínio e o estranhamento pelo que é da ordem do sombrio e do desconhecido, experiência advinda das cidades oitocentistas. Por sua vez, o medo e a consequente sensação de insegurança no espaço público remontam, com a iminente possibilidade de crimes, à escuridão e às trevas do período medieval, que chegam até nossos dias a partir da possibilidade de apagões urbanos, no momento em que a sociedade faz um verdadeiro elogio à eletricidade. Completando a trilogia, o espetáculo, verdadeiro paradoxo do urbanismo acionado pelos grandes holofotes urbanos, é caracterizado tanto pela produção de imagens e marcas urbanas quanto pela vigília contínua do espaço público. Por meio das pistas encontradas no percurso investigativo, tentou-se cartografar como a noite tem sido narrada, portanto, desde a modernidade. Dois corpora narrativos – nomeadamente, as políticas culturais e a literatura – alimentam, de modo transversal, os três imaginários defendidos, procurando situar o lugar da noite na cidade e no urbanismo. O primeiro deles tem como foco todo um sistema de eventos culturais públicos que visam à noite como objeto de interesses, onde a prática urbana anual de amplo alcance Nuit Blanche de Paris vem desencadeando, desde sua criação, em 2002, uma sequência de eventos que levam sua marca, mas também outros, similares, a várias cidades do globo. O segundo corpus é composto por narrativas urbanas literárias que plasmam a ideia dos mistérios da noite, com especial atenção aos livros “Les dernières nuits de Paris” (1928), do francês Philippe Soupault, e “Os pastores da noite” (1964), do brasileiro Jorge Amado. Através das noções de conexões, modelo e desvios, particularmente, entre Paris e Salvador/Bahia, vislumbra-se possibilidades e impossibilidades da sobrevivência da experiência mesma da noite no âmbito das políticas públicas urbanas atuais, conjecturando-se a respeito do paradeiro de seus mistérios inerentes.

Palavras-chave: Noite. Cidade. Urbanismo. Narrativas urbanas. Imaginário urbano.

Orientador

Paola Berenstein Jacques

Surpevisor Estágio-Saunduíche – CAPES/PDSE

Alain Guez (ENSAPLV-França)

Período

2014-atual

Estágio do trabalho

Pesquisa em andamento