Doutorado

O impacificável nas cidades

Cícero Menezes da Silva

Os sem-paz nas cidades, a dissociação violenta que sobressai de suas existências, além de ser a grande ameaça, é o que atenta contra os regimes de pacificação urbana operados sob a pretensa comunitária. A calamidade incessante que os atinge e a acuidade bárbara com a qual enfrentam todas as intempéries mundanas absolutamente fora da vida em comum fazem deles, onde quer que se encontrem, os habitantes de uma extensão estrangeira. “Vive-se numa comunidade, desfruta- se as vantagens de uma comunidade”, escreveu Nietzsche, “vive-se protegido, cuidado, em paz e confiança, sem se preocupar com certos abusos e hostilidades a que está exposto o homem de fora, o ‘sem-paz’, […] desde que precisamente em vista desses abusos e hostilidades o indivíduo se empenhou e se comprometeu com a comunidade.”* Essa condição desventurada, que sob a via das proscrições compõem a parte amaldiçoada das cesuras sociais, antes de tudo, foi a condição de vida transvalorizada pelo filósofo alemão em sua Genealogia da moral. De uma maneira ou de outra, a comunidade dos homens, se é que ela pode vir à alguns, aos sem-paz ela nunca vêm, senão enquanto uma hostil usurpação que prontamente os conjura. A heterogeneidade abissal de suas práticas é no cotidiano das cidades a condição de aparição do nada em comum e, a um só tempo, a condição de manifestação que quebra a palavra e o contrato com a totalidade ilusória ou com qualquer que seja o esforço de comunhão entre homens.

Malogrando a vida em paz no tocante à homeostase social em torno dos regimes urbanos pacificatórios, tais aparições e manifestações impacificáveis perfazem corpos sempre estranhos, incodificados e enquanto tais, decisivamente irredutíveis. Eles são a outra face, o inverso, o avesso das formas apreensíveis ou codificadas, uma espécie de “povo por vir e que ainda não tem linguagem”, mas para o qual, “escreve-se”,** anunciaria Deleuze. Ora, a intensidade que perfaz esse povo que vem, que não sessa de vir e que por isso mesmo, está sempre chegando, é justamente o que buscamos reverberar na presente pesquisa, contudo, sem por ele pretender falar, pondo em evidência tão somente a radicalização dispersiva que suas singularidades condensam e que indubitavelmente violenta as premissas da realização comunitária nas cidades. Tais formas impacificáveis, aberrações do ponto de vista científico, sempre irão escapar aos meios que, via de regra, tentam confiná-las ou, ao menos, iluminá-las com as luzes austeras do conhecimento. Trata-se, assim, da manifestação do inefável, daquilo que não pode ser dado como assimilável, materialidades absolutamente informes que esfacelam na cidade o substancialismo das formas, desdobrando-se ininterruptamente em algo novo, totalmente outro. Narrar ou dizer sobre o impacificável nas cidades seria então praticar uma “ciência do informe”, uma “ciência daquilo que é totalmente outro”, como propôs Bataille, uma heterologia,*** que semanticamente se aproxima de uma escatologia ou até mesmo de uma teratologia, mas transladando de uma etiologia biológica à etiologia social.

Nesses termos, em sua proposição, a heterologia não poderia ser tomada senão como um paradoxismo, pois a ciência, por definição, seria o estudo do homogêneo, daquilo que apresenta certa recorrência, isto é, uma constante recondução ao mesmo. O heterológico especificamente nas cidades, assim, parodia e se exclui do lastro urbanístico ou ao menos de sua concepção científica acerca das cidades, que, enquanto tal, voltar-se-ia tão somente aos fenômenos homogêneos em prol de uma pretensa realização comunitária. Logo, desviar-se do aporte científico ou, quiçá, lançar-se fora dele ao mirar o impacificável nas cidades seria, pois, afiançar a potência incomensurável do próprio conhecer, o qual ultrapassa sem cessar o universo do conhecimento que a ciência edifica, possibilitando a emergência nietzschiana de uma gaia ciência sobre as cidades. Trata-se, nestes termos, de colocar a experiência em causa, ainda que através das tramas discursivas tributárias ao pensamento científico, que mesmo ao confinar os fatos sociais no interior de um universo simbólico, fechado nele mesmo, de forma fugaz e no limite, possibilita a aparição do inapreensível, de constantes movediças no real, ou, caso se queira, do heterogêneo nas cidades. É, então, por meio de uma atuação heterológica e, como tal, provida por uma perspectiva anamórfica ou em contínuo deslocamento que, nesta pesquisa, nos voltaremos às infrações da placidez urbana hegemonicamente gerida, ao impacificável nas cidades, cujas manifestações perfuram, fraturam, disrompem os sistemas de coação e controle urbano generalizado que não têm cessado de nos impor os seus constrangimentos.


NOTAS

* NIETZSCHE, F. Genealogia da moral: uma polêmica. Trad. Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 60.
** DELEUZE, G. Conversações. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1992, p. 179.
*** BATAILLE, G. La valeur d’usage de D.A.F. de Sade (I). In: BATAILLE, G. Œuvres completes II. Paris: Gallimard, 1970, p. 61. Tradução nossa. No original: “Science de ce qui est tout autre”.


Palavras-chave: Singularidades impacificáveis. Aberrações urbanas. Heterologia. Gaia ciência. Comunidade impossível.


Orientador

Pasqualino Romano Magnavita

Coorientador

Washington Luis Lima Drummond

Período

2017-atual