Doutorado

Ruínas do futuro: diálogos cruzados entre imagem e arquitetura no século XXI

Ana Luiza Silva Freire

Este resumo apresenta o projeto de tese submetido e aprovado à seleção do curso de doutorado do PPG-AU UFBA para a turma de 2019, com adição de algumas outras observações decorrentes do processo (em fase inicial, mas também em movimento) de reflexão da autora.

Em outubro de 2018 foi proposto ao PPG-AU desenvolver um trabalho que tinha como objeto de estudo os casos de abandono de mega-projetos na costa do nordeste brasileiro, quer eles não tenham sido construídos completamente ou parcialmente e/ou não tenham sido ocupados, e estejam abandonados, em situação de ruína. Esse objeto, que investiga as ruínas no intervalo temporal referente à virada do século XX até a atualidade, completaria-se ao ser confrontado com as imagens, representações e discursos sobre o desenvolvimento urbano na contemporaneidade. O interesse do trabalho, sobretudo, é discutir a ideia de “ruína” como objeto edilício mas também como conceito, dentro de um campo ampliado de conhecimento.

Espera-se, a partir desse objeto, organizar um inventário imagético sobre o fracasso do urbanismo especulativo e discutir a partir das evidências espaciais e do campo da representação – imagens, planos, discursos – aspectos históricos e culturais urbanos e suas transformações na contemporaneidade. A pesquisa objetiva, em linhas gerais, a) discutir a noção de ruína como expressão de um processo histórico, cultural e político; b) compreender como se estruturam as representações sobre a arquitetura do presente na construção de um projeto de desenvolvimento; c) contrapor casos de projetos arruinados com suas imagens e discursos.

Entretanto, desde outubro começou-se a perceber que, por um lado, o foco do objeto nos mega-projetos do setor imobiliário e turístico necessita ser repensado. Os mega-projetos – no caso, os localizados no Rio Grande do Norte, estado de onde a autora do trabalho vem – foram completamente transformados após a reverberação midiática e especulação inicial. Grande parte dos lotes reservados aos mega-projetos foram parcelados em diminutas áreas onde foram construídas residências de uso pessoal e empreendimentos de pequeno porte, com características de uso restrito, voltados ao turismo internacional, ou simplesmente não houve qualquer construção. Foi noticiado que investidores desses mega-projetos chegaram a ser presos, e, com a Copa de 2014, a discussão sobre a implantação de tais empreendimentos ficou esquecida. Assim, porque as marcas espaciais desses projetos não construídos já correspondem a outros projetos, e porque isso decorreu de uma dinâmica de esquemas ilícitos nacional e internacional, se faz necessário ponderar acerca das possibilidades de investigação necessárias ao cumprimento da pesquisa.

Por outro lado, o escopo acerca do tema “ruínas contemporâneas” alargou-se para além dos casos dos mega-empreendimentos. Na literatura acadêmica, esse tema é debatido atualmente, por exemplo, desde casos de esvaziamento de cidades em que a população está em declínio, ou de cidades industriais abandonadas, até estudos acerca da arquitetura em países antes comunistas. Diferencia-se, ademais, da discussão acerca das ruínas do pós-Guerra, porque essa discussão desenvolve- se a partir de ruínas que foram formadas em um só tempo (o dos bombardeios). Há, portanto, uma revisão bibliográfica em curso, necessária ao objeto de estudo – o qual, no momento atual, parece extravasar para além das ruínas dos mega-projetos do setor imobiliário turístico e apontar para outras diversas formas de arruinamentos que a produção espacial contemporânea origina, principalmente no meio urbano.

O interesse acerca das ruínas parte da alegoria da “história como ruína”, do filósofo alemão Walter Benjamin. Essa alude à busca de seu autor por outro entendimento acerca do processo histórico – busca que caminha lado a lado com o esforço de Benjamin de escrever uma historiografia emancipada de todo caráter científico (ROCHLITZ, 2003, p. 306). A história como ruína, portanto, corresponde a uma noção de que o continuum do processo histórico está explodido e deixa ver que, ao invés de um encadeamento de acontecimentos que nos levaria a uma reconciliação social e com a natureza, o passado configura-se como uma catástrofe de entulhos e fragmentos que se acumulam, ruína sobre ruína, aos nossos pés. Trabalhar com as ruínas, nesse sentido, desdobra-se para uma pesquisa sobre os restos, o que sobrou ou foi consumido antes mesmo de ter seu uso e ocupação consolidados. Ademais, esse tema remete à dicotomia da “destruição-criativa” do capitalismo (HARVEY, 2008 e BERMAN, 2014).

Os projetos não concluídos e abandonados, especialmente, oferecem uma base material e simbólica que pode ser usada para refletir sobre: i) o soterramento do valor funcional da arquitetura pelo valor da especulação futura; ii) a volatilidade e instabilidade das formas do capitalismo sujeitas ao capital fictício; iii) a incapacidade do processo de desenvolvimento econômico fixar-se em uma base geográfica determinada; iv) o papel da arquitetura e da sua representação como espetáculo e como imagem bidimensional, criadoras de valores e imaginários, para o fenômeno urbano contemporâneo; v) o tempo e o processo histórico e suas relações com a dimensão factual urbana.

Portanto, a tese a ser desenvolvida baseia-se na confrontação de casos de ruínas contemporâneas com as imagens, discursos e narrativas produzidas de seus projetos e edifícios, bem como com o estudo conceitual do tema na contemporaneidade. A ruína deve ser apresentada e discutida a partir de sua base material, contrapondo a ela os discursos e promessas sobre o urbano, e assim, desmistificando imagens fetichizadas e processos enviesados de transformação espacial, operações políticas e econômicas, e concepções sobre o processo histórico.


REFERÊNCIAS

BENJAMIN, W. Teses sobre o conceito da história. (1940). Obras escolhidas, 2012.
BERMAN, M.(1982). Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
HARVEY, D. (1992) Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 2008.
ROCHLITZ, R.; ASSUMPÇÃO, M. E. O. O desencantamento da arte: a filosofia de Walter Benjamin. EDUSC, 2003.


Palavras-chave: Imagem. Cidade contemporânea. Transformações urbanas. Temporalidade.


Orientadora

Paola Berenstein Jacques

Período

2019-atual