Mestrado

A relação indivíduo-cidade na produção narrativa de João Gilberto Noll, Hotel Atlântico, e de Maria Valéria Rezende, Quarenta Dias

Vivianne Carvalho do Bú

Sob uma óptica transdisciplinar, a pesquisa está apoiada na apreensão do contexto citadino, enquanto experiência urbana, da produção literária do final século XX e início do século XXI. Desse modo, propõe-se investigar como a cidade contemporânea e suas novas formas de produção/reprodução sócio espaciais refletem no sentimento de desenraizamento dos personagens dos romances de João Antônio Noll, Hotel Atlântico (1989), e de Maria Valéria Rezende, Quarenta Dias (2014).

A escolha dos dois romances se deu, a prior, pelo fato de ambas narrativas apresentarem personagens-protagonistas em constante trânsito pelo meio urbano. Por esta razão, a partir da relação dialógica entre “individuo-meio urbano”, sugerida nas narrativas, seria possível transferir o objeto de estudo do campo literário para o universo de análise da arquitetura e urbanismo.

O primeiro objeto de estudo é o romance Hotel Atlântico (1989) que apresenta em seu enredo um narrador-protagonista que mergulha em uma viagem onde os destinos não são previamente determinados e, sim, impulsionados pelo acaso, inesperado e, principalmente, pelo desejo de busca do personagem que sempre o leva a partir rumo ao desconhecido. Dessa forma, é como se a orientação geográfica, o destino, ou os pontos de fixação momentâneos não tivessem importância significativa. Dentro dessa perspectiva, qualquer lugar “serve”, o que passa a ser valorizado é o processo, o movimento, o deslocamento.

Por esta razão, pode-se inferir que João Gilberto Noll exibe um personagem desenraizado tanto sob o aspecto físico do lugar, na medida em que o personagem está sempre em trânsito, quanto no que concerne do perfil sócio histórico do sujeito protagonista que não tem nome, identidade revelados, a única informação transmitida ao leitor do romance é a de que o protagonista é um ex ator. Ademais, as relações interpessoais estabelecidas entre o protagonista e outros personagens são, essencialmente, fragilizadas. Esse esvaziamento emocional pode ser ressaltado quando o personagem afirma no romance: “Eu não guardo nada comigo” (Noll, p. 41) conotando a ideia de que não há possibilidade para lembranças, preservar algo, tudo se direciona para a ação momentânea do presente, sem fim ou destino.

O desenraizamento no que diz respeito à relação entre o indivíduo e a paisagem de pedra é potencializada através do itinerário errante do protagonista por hotéis, ônibus, rodoviária, hospital que constituem espaços de passagens. Para o teórico Marc Augé (2012) esses espaços de não fixação constituem o que ele denomina como “não lugares”. De acordo com o autor, “se um lugar pode ser definido com identitário, relacional, histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá o não-lugar” (p. 73).

O segundo objeto de estudo, utilizado como pretensa ferramenta de compreensão do binômio individuo-cidade contemporânea, é o romance Quarenta dias (2014) da autora Maria Valeria Rezende. O enredo traz como narrador-protagonista, Alice, uma professora aposentada que mora na cidade de João Pessoa, Paraíba, e que é forçada pela filha, Norinha, a se mudar para o sul do Brasil, Porto Alegre, cidade onde a filha mora com o marido. O motivo que desencadeou essa imposição por parte de Norinha está relacionado ao desejo de ter a mãe por perto para ajudar a cuidar dos futuros filhos de uma gravidez ainda não programada. Sendo assim, a contragosto, Alice se muda para Porto Alegre para um pequeno apartamento mobiliado pela filha.

A mudança física da protagonista para outra cidade, outro lar vai promover uma espécie de desreferencialização, onde Alice não se reconhece naquele espaço privado e passa a negá-lo. Por esta razão, como forma de fugir e, de certo modo, reagir à realidade que lhe foi imposta, Alice mergulha na atmosfera amorfa das ruas da capital gaúcha, como um errante urbano, na tentativa de reencontrar um sentido para vida.

No entanto, para justificar sua “insana” decisão de experimentar visceralmente a cidade, Alice escolhe, portanto, um motivo para dar o gatilho às suas deambulações urbanas ou, melhor, ao seu autoexílio. A protagonista determina, portanto, como propósito, encontrar Cícero Araújo, filho da manicure da prima, que está há mais um ano sem entrar em contato com a família na Paraíba. A procura por Cícero vai direcionar os trajetos da personagem que passa a se inserir nas camadas marginalizadas da cidade de Porto Alegre, nos espaços esquecidos, “invisíveis” que aparecem na narrativa de forma crua, “desglamourizados”. A procura por Cícero é, na verdade, apenas um pretexto para dar sentido a suas errâncias pela cidade. De acordo com Jacques (2008), o errante estaria interessado no “desterritorializar, ou no se perder, este estado efêmero de desorientação espacial, quando todos os outros sentidos, além da visão, se aguçam possibilitando uma outra percepção sensorial”.

Dessa forma, a cidade aparece na narrativa como um dispositivo de uma reflexão urbana, social e, em uma lente aproximada, uma reflexão introspectiva, desencadeando, assim, as inquietações íntimas da protagonista. A rua passa, por sua vez, por um processo de ressignificação no universo vivenciado pela protagonista na medida em adquire a representatividade de lar. Assim sendo, há uma inversão do que é convencionalmente estabelecido onde a casa, o apartamento em Porto Alegre, se torna um espaço de estranhamento e perturbador para a existência da protagonista.

Em consonância com o romance de João Gilberto Noll, Maria Valeria Rezende traz uma personagem que está em constante movimentação pelas “zonas opacas” da cidade. Nesses percursos, a protagonista dá ênfase, semelhantemente ao romance de Noll, a representações de “não lugares” tais como rodoviária, aeroporto, hospital que vão atuar como espaços de ancoragem da personagem. É possível sugerir, portanto, que esses cenários não “identitários” sejam explorados nos romances como forma de agudizar a representação imagética da cidade contemporânea.


Palavras-chave: Narrativas literárias. Experiência urbana. Cidade contemporânea.


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Período

2019-atual