Mestrado

Da cidade do governo dos homens: biopolítica e espaços imunitários na cidade contemporânea

Gustavo Chaves de França

2014

O presente trabalho se propõe analisar a lógica política que torna possível o contemporâneo fenômeno do “fechamento urbano”. Notar-se-á que o urbanismo do século XIX está intrinsecamente ligado a uma estratégia de poder que toma a vida do homem como objeto, que é a biopolítica, ou o governo dos homens. Trata-se de um saber ligado à intervenção sobre o espaço urbano para a gestão de populações. Será observado de que modo a biopolítica do século XIX ainda está presente na contemporaneidade, principalmente nas novas estratégias de poder da cidade, e do urbanismo contemporâneo. Através do pensamento do filósofo Roberto Esposito, vê- se que a biopolítica moderna possui um caráter radicalmente imunitário, que o “paradigma da imunização” foi determinante na fundação da “comunidade política” moderna. Vê-se ainda que a própria noção de comunidade – tão recorrente no discurso contemporâneo sobre a cidade – trai a sua raiz filológica, denominada communitas, conceito que liga a comunidade sempre ao risco da alteridade. Por negar o risco e colocar a proteção e o cuidado com a vida como objetivo político último, a “comunidade” fundada sob paradigma moderno é sempre imunitária, a negação da comunidade, a immunitas. O crescimento das “gated communities”, espaços residenciais fechados, é um sinal deste “fechamento urbano”, que impõe à forma da cidade e de suas práticas o paradigma, agora mais radical, da proteção do sujeito proprietário. O que se nota é que mesmo os movimentos que se põem como críticos ao urbanismo moderno não conseguem se desvencilhar do paradigma biopolítico imunitário, pois pretendem ainda tomar a vida mesma como objeto. Outrossim, a insistência na separação público/privado faz com que as propostas para a idéia de público, e por conseqüência de “espaço público”, não resultem no comum da communitas, mas no pertencimento da immunitas. Nenhuma estranheza, portanto, que o new urbanism, que se propõe crítico da lógica da cidade moderna, reproduza espaços de segregação e possa tornar-se referencial em projetos das assumidamente privadas “gated community”. Os processos urbanos e o pensamento sobre a cidade, especialmente o nascido na modernidade, ainda se apresentam sob a mesma lógica política, a biopolítica imunitária.


Palavras-chave: Biopolítica. Comunidade. Urbanismo. Fechamento urbano. Espaços imunitários.


Orientador

Fernando Gigante Ferraz


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