Mestrado

Rua de contramão: o movimento como desvio na cidade e no urbanismo

Gabriel Schvarsberg

2011

Em tempos de metrópoles brasileiras aspirando à cidades-globais, qual o papel da rua e o que passa (ou não) por ela? Como ler os fluxos que passam pelos espaços de movimento das cidades e que mutações estão em curso pela ação das forças que produzem as cidades? Assumindo a velocidade como fator-chave para o entendimento desses fluxos, o estudo busca responder a essas e outras questões sob a perspectiva de alguns atores sociais que utilizam o espaço da rua como suporte para desenvolver suas atividades na cidade de Salvador, especialmente aquelas atividades consideradas subversivas, “a-normais”, ilegais ou alternativas às atividades urbanas convencionais. São moradores de rua, catadores de lixo, vendedores ambulantes, bicicleteiros, loucos – arquétipos do que denominaremos atores urbanos ambulantes –, que na rua praticam, em velocidade lenta e com algum grau de invisibilidade social, suas resistências e suas subjetividades singulares na contramão dos processos dominantes de produção de cidade. Compreender de que maneira o movimento inserido nas atividades urbanas desses atores é instrumentalizado para o desvio, a astúcia e a criatividade, associa-se à reflexão sobre os limites da prática urbanística e a uma prática que atua no próprio limiar da disciplina. Busca estabelecer as diferenças entre uma relação ambulante com a cidade e uma relação sedimentada; a diferença entre território e territorialidade; um urbanismo de uso e ocupação do solo, sob pressão de forças imobiliárias e um urbanismo de fluxos, sob pressão da cultura do automóvel. À leitura da “cidade sedentária” – que pensa a partir do solo, da propriedade privada, do espaço edificável e sobre um imaginário coletivo sedimentado e hegemônico – contrapomos a leitura da “cidade nômade”, que pensa sobre os fluxos, o movimento no espaço e sobre imagens em mutação, que constantemente resignificam aqueles elementos urbanos outrora sedimentados no imaginário coletivo. A relação entre a rua e os atores urbanos ambulantes será traduzida por um estado de rua, que se por um lado pode ser entendido por uma qualidade presente a priori nas ruas, poderá ser identificado por uma conjuntura, ou situação que se instaura e varia em duração, e mais além, como fator incorporado que aqueles atores carregam consigo em suas ambulâncias urbanas. Por ser necessariamente heterogêneo, este estado encerra naturalmente uma micropolítica, ou uma política no nível da rua, que pelo confronto – direto ou indireto – engendra novos arranjos nos usos e significados da cidade. Que estado é este, e como é produzido pela subjetividade desses atores? E para que urbanidades outras suas linhas de fuga apontam?


Palavras-chave: Movimento. Estado de rua. Atores urbanos. Ambulantes.


Orientadora

Paola Berenstein Jacques


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