Mestrado

Forte da Capoeira: esquivas entre resistência e espetáculo em Salvador

Carolina Ferreira da Fonseca

2009

As idéias em jogo neste trabalho relacionam um território – o Forte de Santo Antônio Além do Carmo; uma prática – a capoeira; e uma ação – cartografar. A narrativa escapa à linearidade cronológica e pretende instaurar um fluxo turbilhonar de histórias, paisagens, personagens, afetos, conceitos e autores. Estas matérias de expressão emergem de um ato cartográfico esboçado a partir da aproximação do campo de forças delineado pela relação entre Forte-capoeira-urbanismo. A elaboração deste trabalho singularizou um modo de estar em contato com a capoeira, a cidade, o Forte e os teóricos; e arriscou-se numa experiência metodológica híbrida. Os movimentos da capoeira foram expropriados de seu contexto eminentemente corpóreo, transvalorados em ferramentas conceituais e metodológicas, e incorporados na narrativa, de forma a criar um ritmo, uma imagem e uma sensação corporal no leitor. Criou-se um tipo de jogo, cujas regras referenciam-se no repertório corporal da capoeira, e cujos elementos foram produzidos ao longo da investigação do processo de ocupação do Forte do Santo Antônio Além do Carmo, a partir de 1982. O jogo inicia-se com três diferentes trajetos percorridos para acessar o Forte. As paisagens vigentes e dissidentes conformadas nesta experiência compõem as primeiras linhas da nossa cartografia. Linhas- trajetos, escrituras dos passos na ação de cartografar o referido campo de forças e descobrir algumas conexões possíveis entre o Forte e seu contexto urbano. A segunda aproximação deste campo de forças procede por dois movimentos simultâneos: a efetiva entrada no território Forte e a ampliação do repertório teórico, no sentido de compreender as historicidades da capoeira. A cartografia, neste momento, compõe-se de linhas de vida, que configuram uma estratégia de constituição de múltiplos territórios existenciais operados pela capoeira (ROLNIK, 2006). A terceira aproximação realiza-se a partir das linhas de diálogos, um processo de transvalorar as entrevistas realizadas com alguns personagens ao longo da pesquisa de campo, no sentido da interação dos discursos. Uma construção relacional, aberta às afecções recíprocas entre inúmeras linhas de vida e trajetórias engendradas no Forte. Os diálogos abordam três momentos potentes de relações para se pensar a interação dos vetores espetáculo-resistência, molar-molecular e cotidiano-território. A inserção destes vetores na presente discussão é feita como um movimento arquitetado, que intenciona desencadear outros movimentos e questões, criar tensões; um golpe acionado dentro de um contexto específico e potente de possibilidades de associações, ataques, encaixes e esquivas. Um dispositivo, no sentido de criar relações de forças, produzidas por uma determinada intenção, a construção da narrativa cartográfica.


Palavras-chave: Cartografia. Capoeira. Cidade.


Orientadora

Paola Berenstein Jacques


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