Mestrado

Poéticas e vestígios citadinos: a potência da poesia como erro

Maria Eduarda Azevedo


“poesia é coisa de incorporar.
atravessamento que
como quem confia no mistério das frestas
tateia aberturas

naquilo aparece mineral
se entranha
nada é poroso no mundo da poesia

e por seu próprio risco
vaga-lumes se reinventam

caminhar pelo erro tem gosto de coisa que nao se fecha em si
se perde em pequenos lampejos
carece de certeza
e por isso, sempre parece inacabado”

É nesse passo aberto, fresco, que entro nessa pesquisa, sem certezas, mas disposta a fazer emergir novas perguntas, começando a partir de uma aspiração de investigar caminhos de experienciar, narrar, pensar e fazer o espaço da cidade que “reafirmam a enorme potência da vida coletiva, uma complexidade e multiplicidade de sentidos que confronta qualquer “pensamento único” (JACQUES, 2014). Parte-se de um lugar em que as cidades contemporâneas foram construídas a partir de um regime de interação que petrifica, empobrece, expropria, ou até mesmo, destrói a experiência do espaço. Para tal, faz-se referência a questão da experiência como ponto de partida e problemática da pesquisa, considerando que a percepção da mesma não é neutra.

Em uma rememoração breve, o discurso sobre a destruição da experiência não é um discurso novo. Sabe-se que pessoas como Walter Benjamin em seu ensaio “Experiência e Pobreza” já apontava os efeitos da crise na experiência do homem moderno decorrente das experiências da segunda guerra. Agamben seguiu o rastro de Benjamin, foi ainda mais radical, e disse que a experiência não era mais pobre, mas que ela havia sido expropriada do homem. Para o filósofo, a “pacífica existência cotidiana em uma grande cidade é, para esse fim, perfeitamente suficiente” para atestar a destruição da experiência”.

Ainda assim, a mentalidade de que a experiência estaria em declínio, não configura como a morte da mesma. O empobrecimento da experiência ainda é experiência, ainda que seja uma experiência que se encontra congelada em um campo específico. Didi-Huberman provoca essa questão, e traz que a experiência é uma questão de olhar. Há um instante fugaz de experiência que foge aos holofotes da sociedade espetacular e emite uma pequena luz, uma pausa, um entre que desacelera os flashs de luz. São micronarrativas que brilham na noite, desviando das luzes maiores e dos consensos que se fecham em si mesmos, abrindo um campo em que é impossível que a experiência possa ser destruída, “mesmo que se encontre reduzida às sobrevivências e às clandestinidades de simples lampejos à noite” (DIDI HUBERMAN em SOBREVIVÊNCIA DOS VAGALUMES).

São essas clandestinidades que nos interessam neste trabalho, que como um ato poético em resistência à vida, sobrevivem as narrativas fechadas caminhando pelo erro. Didi-Huberman ainda indica: a poesia e arte valem “como lampejos, ao mesmo tempo eróticos, alegres e inventivos” que agem como potência de diferença e desvio a uma cidade pouco incorporada. A poesia pensada como ferramenta de percepção da cidade, é um exercício de resistência, afastamento e desvio aos holofotes. Trata-se então de uma questão de tornar visível e incorporar essas pequenas sobrevivências no cotidiano da cidade fazendo emergir outras narrativas. Me aproprio da poesia para narrar o discurso corporal da experiência na cidade. Fugindo de uma narração “oca” o poeta é este personagem que toca o mundo com o corpo fugindo de horizontes marcados, fazendo seu caminho pelo desvio. Seu mundo é o poema, que se remonta por “entulho”, colhendo fragmentos na sarjeta, corrompendo suas estruturas, se deixando ser usado e atravessado pelo mundo.

Manoel de Barros, poeta, dizia que a poesia era um inutensílio, que não servia para coisa alguma. A sua poética é rejeita o utilitarismo, a produtividade, a coisificação de tudo, quando desloca o sujeito para um outro olhar do mundo – como pedra, rã, árvore -, um olhar em comunhão, que não tem receio do contato, da relação, da proximidade com as coisas. A poesia pode não ter utilidade, entretanto, o poeta reafirma a potência de uma outra visão e sistema de valores para os seres e a vida, e é dele que tomamos emprestado os olhos.

“A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro.
Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.”
(Livro sobre nada. “As lições de R.Q”. 1996.)

O que se busca aqui é uma epistemologia urbana através da poesia como instrumento de cartografia de reminiscências, de incorporação de vestígios. Poesia que rasga as linhas retas, transvê o mundo, desorganiza os consensos. É uma aproximação da cidade com o corpo, que caminha, que contempla, que pausa. Como diz Ailton Krenak, é preciso ter coragem de ser radicalmente vivos, e resistir e existir nas tensões provocadas por acordos comuns e pela separação.

É importante frisar que não se trata apenas teorizar sobre poesia e cidade, e com isso emergem questões: como ampliar o discurso de narrar a cidade para um jogo poético? É possível articular a pratica urbana com uma reflexividade poética sem achatar outras questões e disciplinas quando a experiência da cidade se dá em um campo tão violento? É necessário considerar as cidades como um campo que não é congelado e se relaciona com diversas disciplinas. O poeta propõe-se a “desexplicar tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes”, enfatizando uma narrativa que cria um “entre”, um espaço que comunga o sujeito e a coisa criando um território outro. Trata-se de desnaturalizar as próprias hegemonias impostas ao ser que vive no meio urbano, fazer estremecer os limites, incorporando o que tem de mais ordinário e ínfimo na cidade, animando fragmentos, aspirando uma forma pensar cidades de forma mais consciente e situada.

“Escrever nem uma coisa
Nem outra —
A fim de dizer todas —
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar —
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.”
(BARROS, Manoel. Poesia Completa. Leya. 2010.)

Bibliografia citada:
BARROS, Manoel. Poesia Completa. Leya. 2010.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
JACQUES, Paola Berenstein. Elogio aos errantes. 2. ed. Salvador: EDUFBA, 2014
KRENAK, Ailton. Radicalmente Vivos. São Paulo: O Lugar, 2020.
BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas v. 1. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012b.


Palavras-chave: Poesia. Vestígios. Caminhar. Cidade. Corpo.


ORIENTADORA

Margareth da Silva Pereira


PERÍODO

2021-Atual