Mestrado

Pensar a cidade por atlas

Daniel Sabóia Almeida Barreto

Neste primeiro ano de pesquisa nosso principal esforço foi o de expandir e aprofundar a compreensão do que constituiria um pensar por atlas. Reunimos reflexões teóricas e experiências teórico-práticas, compondo constelações que, em constante reconfiguração, vem mostrando por meio das aproximações entre conceitos, processos e obras de referência, os caminhos por onde a pesquisa deve seguir.

A mitologia grega conta que Atlas foi um titã que, derrotado pelos deuses do Olimpo em uma batalha, é condenado por Zeus a suportar eternamente o eixo da Terra e toda a abóbada celeste sobre suas costas. Exilado no abismo do mundo, contempla as estrelas, o mar e tudo mais que carrega com enorme esforço, tornando-se um grande conhecedor da astronomia, da geografia e da arte de navegar. Transforma, assim, o sofrimento de suportar em potência de conhecimento (DIDI-HUBERMAN, 2013, p. 80), através do contato, da presença e do tempo.

A palavras atlas, de origem grega, significa etimologicamente aquele que porta, ou suport*. O termo carrega consigo a monumentalidade do titã grego e também da tarefa que lhe é imposta, como monumentais também são a cordilheira que dá nome (as montanhas Atlas, no norte da África); o oceano que separa o velho e o novo mundo (o Atlântico); um continente perdido sob esse mar, do qual se diz ter sido o primeiro rei (Atlântida) e as colunas antropomórficas que sustentam os grandes palácios desde a grécia antiga. Não à toa, a partir do final do século XVI, atlas vai caracterizar uma prática editorial emergente, que nos séculos seguintes consolida-se como gênero epistêmico e meio fundamental de registro e difusão das novas fronteiras do conhecimento em expansão.

Em 1595, é publicado Atlas sive Cosmographicae Meditationes de Fabrica Mundi et Fabricati Figura [Atlas ou Meditações Cosmográficas sobre a Criação do Mundo e a Forma da Criação], organizado pelo holandês Gerardus Mercator. O atlas de Mercator** ambicionava constituir uma Cosmografia que desse conta de toda a criação do mundo, da descrição dos objetos celestiais, da terra, dos mares, da genealogia e da história das nações. A partir de então, atlas torna-se sinônimo de todo tipo de publicação e, mais do que isso, de “uma forma de saber destinada a recolher, em imagens, a dispersão – mas também a secreta coerência – da totalidade do nosso mundo” (DIDI-HUBERMAN, 2013, p. 86).

Ao longo dos séculos seguintes, e particularmente a partir do século XVIII com a eclosão do espírito enciclopedista do iluminismo, proliferam compilações de caráter supostamente utilitarista, reunindo conhecimentos de ciências tão diversas quanto a anatomia, a astronomia, as ciências naturais, a arqueologia, a geografia, a antropologia e a psicologia. No entanto, como observa Didi-Huberman, sob esse aparente utilitarismo inofensivo, todo atlas carrega consigo uma potência explosiva. O conhecimento reunido de forma visual nas pranchas que os compõem convida o leitor a uma deambulação errática que subverte a ordem das páginas, percorrendo- as pelo prazer de deixar divagar a nossa vontade de saber. As imagens, ao invés de limitarem-se a um papel meramente ilustrativo de uma inteligibilidade purificada a priori, introduzem uma dimensão sensível e uma impureza fundamental, que desmonta – e assim convoca a remontar – todo o pensamento ali reunido (DIDI-HUBERMAN, 2013, p.11-12).

Montar, desmontar e remontar constituem o princípio central do Bilderatlas Mnemosyne, concebido pelo historiador da arte alemão Aby Warburg em 1905 e realizado (ou montado) entre 1924 e 1929, ano de sua morte. Warburg retoma a tradição do atlas buscando explodir os limites de uma disciplina calcada exclusivamente em abordagens formalistas e estetizantes, apontando para uma muito mais ampla “psicologia histórica da expressão humana”*** ou para uma “ciência da cultura” (Kulturwissenschaftliche)****. Mais do que a obra de arte em si, interessava a Warburg a potência da imagem em guardar e evocar o que ele chamava de sobrevivências (Nachleben), presenças do passado que emergem no presente, como acontece nos sonhos e na memória. Através da aproximação entre imagens distintas, o foco se volta mais para o intervalo entre elas do que para cada imagem em particular. Esta “iconologia do intervalo”, como o próprio Warburg definiu, buscava, no choque causado pela aproximação de imagens extraídas de contextos e tempos distintos, a emergência de nexos inesperados. Um conhecimento que se constrói com as mãos, no exercício constante de montar e remontar imagens.


Caixas, mesas, quadros

No início do percurso dessa pesquisa, buscávamos através do atlas cruzar dois campos de interesse: o design editorial e o urbanismo. O movimento das constelações, no entanto, foi mostrando um caminho diferente, um desvio, que não resistimos em seguir. A ideia de atlas que foi se configurando parecia não caber no formato-livro, por mais por mais desconstruído, expandido ou reconfigurado que fosse. Presente também desde o princípio, a ideia de pensar o atlas como um meio disparador e como suporte para processos de construção coletiva de conhecimento sobre a cidade foi assumindo protagonismo, reforçando o caráter metodológico da pesquisa.

O aspecto editorial, com isso, assume uma posição secundária, complementar a outras possibilidades de expressão situadas no âmbito do compartilhamento das ideias levantadas através do atlas. O contato com algumas experiências relacionadas ao saber-fazer por atlas apontou para diferentes possibilidades metodológicas e expressivas, que pretendemos cruzar na construção da pesquisa: as Civic Exhibitions e a Encyclopaedia Civica propostas por Patrick Geddes; o projeto Atlas# Verona, coordenado por Alessia de Biase; as Fluxus Year Boxes, de George Maciunas, a Boite-en-Valise de Marcel Duchamp e o livro/exposição Ressaca Tropical de Jonathas de Andrade, entre outras.

O atlas, assim, vai assumindo uma configuração híbrida, no cruzamento entre as ideias de caixa, mesa e quadro, no sentido de um objeto que deve dar suporte às ações de arquivar, montar e expor/transmitir/comunicar. Constituir um arquivo, para dele selecionar os fragmentos a serem montados na mesa, de onde emergeriam sínteses parciais – tanto no sentido da parcialidade inerente à posição de cada montador, como no de serem partes, nunca definitivas nem conclusivas – e ao mesmo tempo novos fragmentos a serem desmontados e remontados por outros leitores-montadores. Um objeto inesgotável, instável, sempre aberto e em movimento, que extrapola sua condição física e passa a existir enquanto ação coletiva, reunindo diferentes estudantes, especialistas, artistas e atores sociais em torno da construção de um saber heterogêneo sobre determinada situação urbana.


NOTAS

* “A palavra atlas, em grego, é formada pela combinação do a prostético (ou seja, da adjunção, no início de uma palavra, de um elemento não etimológico que não modifica o sentido da própria palavra) e de uma forma fo verbo tlaô, que significa “portar”, “suportar”. Tlas ou atlas é, portanto, no sentido literal, o portante, o portador por excelência” (HUBERMAN, 2011, p. 76)
** O Theatrum Orbis Terrarum (1570), do também holandês Abraham Ortelius, é considerado o primeiro atlas moderno, apesar de não ter a denominação no seu título. O próprio Mercator havia publicado outros atlas anteriormente, a partir de 1585, no que pretendia ser uma série cosmográfica sobre o céu e a terra. O último desses volumes foi batizado de Atlas, e foi publicado apenas após a sua morte.
*** Como descrito pelo próprio Warburg, citado em AGAMBEN, 1984, p. 115
**** A biblioteca de Warburg em Hamburgo é batizada pelo nome de Kulturwissenschaftliche Bibliothek Warburg (KBW – Biblioteca para a ciência da cultura).


REFERÊNCIAS

DE BIASE, A.; ZANINI, P. (dir.). Atlas#1 Veronetta. Explorazioni temporali di un quartiere. Verona: LAA Recherches, 2018
DIDI-HUBERMAN, G. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. Tradução Renata Correia Botelho e Ruy Pires Cabral. Lisboa: KKYM, 2013.
DA COSTA, F. A. Imagem e experiência de apreensão da cidade. In: ______. Experiências metodológicas para compreensão da complexidade da cidade contemporânea. Salvador: EDUFBA, 2015, v. III, p. 52-82.
JACQUES, P. B. Montagem urbana: uma forma de conhecimento das cidades e do urbanismo. In: JACQUES, P. B. Experiências metodológicas para compreensão da complexidade da cidade contemporânea. Tomo IV – Memória, narração, história. Salvador, EDUFBA, 2015, p. 66-75.
JACQUES, P. B. Montagem de uma outra herança: urbanismo, memória e alteridade. Tese acadêmica em substituição ao memorial para promoção ao cargo de Professor Titular. Salvador, 2018.
WILLIARD, L. J.. What is an Atlas? An Historical Overview and Comparison of Use Between the Netherlands and the United States, and a Recontextualization for 21st Century Design. Thesis (Master of Fine Arts with a Major in Communication Design) – Texas State University, 2017.


Palavras-chave: Palavra1. Palavra2. Palavra3.


Orientadora

Paola Berenstein Jacques

Período

2018-atual