Pós-Doutorado

Sem título

Janaina Bechler

Essa pesquisa busca pensar a experiência urbana e as formas de narrá-la. Particularmente nos interessam aquelas que se propõe a uma disponibilidade para experimentar a rua, a cidade, a partir da colocação em suspensão de um “si mesmo”, identitário. Encontramos essas formas narrativas em relatos de movimentos errantes, nas “vagabundagens”, “deambulações”, formações delirantes, de artistas, loucos, literatos. A partir de uma condição, seja ela produzida e intencionada, ou não, que desestabiliza o domínio da ação e do modo de estar na cidade cotidianamente, a experiência e sua narração aproximam-se muito de um lugar de exílio do sujeito, comum à literatura e às poéticas, ao que Blanchot, em diferentes obras, nomeará como neutro, fora, noite, exterior.

Em nossa hipótese, essa condição Fora/exterior se transmite nos relatos como um vácuo de sentido, e, ainda que seja escrito em primeira pessoa, não se deixa reduzir em posições linguageiras comuns, de sujeito e objeto, e constitui-se como uma questão, um ‘entre” a identidade do Eu e a vertigem de seu esfacelamento.

“Em outras palavras, a literatura não é algo que se dê num espaço exterior ao mundo, ele é o fora, esse não-lugar sem intimidade, sem um interior oculto, onde o artista é aquele que perdeu o mundo e que também se perdeu, uma vez que não pode mais dizer Eu. Portanto, a literatura não se fixa a nada, nem a um espaço – interior ou exterior, nem a um tempo, nem a um sujeito. Sua fala é essencialmente errante, móvel, nômade; ela se coloca sempre fora de si mesma.” (LEVY, 2011, 29-30)

Parece-nos ainda, e nos interessa também por essa característica, como um lampejo da constituição primitiva do EU, quando da separação do espaço eu-outro, em que os limites-bordas do corpo se produzem no embate com outros corpos, um enigma de constituição que resta como tal, insistindo em não se desvelar, mas se impõem como um radical desconhecido. A estranheza de si e do espaço, uma vez que essas categorias são suspensas:

“Acreditamos falar do neutro alí onde a relação direta com um sujeito que a exerceria parece faltar a uma ação de passividade; isso deseja, morre-se. Certamente, a pulsão do enigma que Freud, ao nomear Inconsciente (e ao servir-se, somo de um dos pontos de referência capazes de delimitá-lo, da palavra de certo modo muda de que o francês ça [isso], a um tempo grosseiro e refinado – como se da rua “vulgar” se elevasse o murmúrio de uma afirmação indomável, à maneira de um grito do submundo – , assinala melhor ainda a estranheza), não cessa de designar sem poder fixá-la, é de início entendida por meio do neutro, e, em todo caso, faz com que nos limitemos a entender o neutro como a pressão desse enigma.” (BLANCHOT, 1986, 38)

Se pensarmos que a transmissão desse “desconhecido” desestabiliza a ordem valorativa das palavras, como afirma Blanchot (1986, p. 38), podemos pensar que há uma possibilidade intrínseca ao ato de produção das experiências urbanas, e sua transmissão, de uma abertura para uma transfiguração dos espaços da cidade, e a possibilidade de existência de outras histórias contadas e fabuladas. Quem sabe, apontam também para uma transfiguração do sentido da política (escrevemos com Agamben [1995], política como “fenda comunicante”), a medida em que colocam em questão a relação eu-outro, a partir desse “desconhecido” posto em cena. São questões de uma pesquisa que está em constituição.


REFERÊNCIAS

AGAMBEN, G. 1995. Moyens sans fins – notes sur la politique. Paris, Payot & Rivages, 2002.
BLANCHOT, M. 1986. A conversa infinita 3: a ausência de livro. São Paulo, Escuta, 2010.
LEVY, T. S. 2011. A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2011.


Palavras-chave: Experiência urbana. Narrativa. Exílio do sujeito.


Supervisora

Paola Berenstein Jacques

Período

2017-atual