Pós-Doutorado

Pensando na encruzilhada: giro decolonial, paisagens e paisagismos do sul

Leo Name

Inicio o traçado de três rotas de pensamento rumo a uma encruzilhada (Martins, 2003), operador analítico que intercruza mundos materiais e espirituais e caminhos que vão e vêm de diferentes lugares de conhecimento. E pelo qual viso a uma geopolítica da sensibilidade e do conhecimento (Mignolo, [2013] 2015) em auxílio a projeto de pesquisa, ensino e extensão no campo do paisagismo, a se executar após o período do estágio pós-doutoral.

Desde a primeira rota avistarei e revisarei criticamente o giro decolonial latino-americano. Seus escritos são precisos ao apontar a permanência da “colonialidade do poder” (Quijano, 2000) nas classificações sociais com base em “raça” e na produção do conhecimento atravessada pelo eurocentrismo. No entanto, acionam metáforas espaciais, análises de longa duração e reposicionamentos epistêmicos sem desenvolver um debate sobre espaciotemporalidades. Tampouco discutem as diferentes combinações entre localizações epistemológicas, localizações geográficas e a ideia de “raça” na sua própria produção. Também generalizam conflitos étnico-raciais em torno de comunidades indígenas, em alguma medida ofuscando questões de grupos rurais e urbanos de matriz africana. Dedicam pouca atenção à relação entre eurocentrismo e ocularcentrismo e, finalmente, mantêm dualismos na recorrente definição da decolonialidade a partir do que ela não é e na evocação da fronteira como metáfora da produção do conhecimento – que contraponho à encruzilhada.

Desde a segunda rota atravessarei paisagens, compreendendo-as como provisórias e em mutação, mediadas por cosmovisões e imagens. No entanto, se o debate aprofundado sobre paisagens pode desvelar sua polissemia, suas dimensões espaciotemporais e a “racialização” de suas morfologias e tipologias, o ensino de paisagismo tende a restringi-las: em projetos de espaços livres que estetizam a natureza e operacionalizam-na num exercício ocularcêntrico de geometria. Voltar-me-ei, então, a análises e diretrizes anteriores sobre o conceito de paisagem e um ensino de paisagismo em adesão à epistemologia decolonial (Name, 2010; Name e Moassab, 2014), aspirando redefini-las.

Finalmente, num horizonte de longo prazo, traçarei uma terceira rota sobre “paisagismos”, compreendidos como “desenhos do Sul” (Gutiérrez-Borrero, 2015; Escobar, 2016): conjunto de saberes e práticas objetivas, subjetivas e intersubjetivas conduzidas por diferentes comunidades do Sul Global na produção de suas paisagens. Inclusive aquelas que não possuem palavras para definir “paisagem” e/ou formadas por “paisagistas” humanos e/ou não humanos.


REFERÊNCIAS

ESCOBAR, A. Autonomía y diseño. Popauán: Editorial Universidad del Cauca, 2016.
GUTIÉRREZ-BORRERO, A. resurgimientos: sures como diseños y diseños otros. Nómadas, n. 43, p. 113-129, 2015.
MARTINS, L. Performances da oralitura: corpo, lugar da memória. Letras, v, 25, p. 55-71, 2003.
MIGNOLO, W.D. Geopolítica de la sensibilidad y del conocimiento. In: CABALLO, F. e HERRERA, L.A.R. (Orgs.) Habitar la frontera. Barcelona: CIDOB/UACJ, (2013) 2015, p. 173-189.
NAME, L. O conceito de paisagem na geografia e sua relação com o conceito de cultura. GeoTextos, v. 6, p. 163-186, 2010.
NAME, L. e MOASSAB, A. Por um ensino de paisagismo crítico e emancipatório na América Latina. Encontro Nacional de Ensino de Paisagismo nas Escolas de Arquitetura e Urbanismo no Brasil, 12, 2014. Anais… Vitória: ENEPEA, 2014.
QUIJANO, A. Colonialidad del poder, eurocentrismo y America Latina. In: LANDER, E. (Org.) La colonialidad del saber. Buenos Aires: CLACSO, 2000, p. 201-246.


Palavras-chave: Paisagismo. Paisagem. Giro decolonial.


Supervisora

Paola Berenstein Jacques

Período

2019-atual