Doutorado

Estudo dos processos de canonização de modelos ocidentais de corpo e suas vozes dissonantes, coexistentes, anacrônicas, paradoxais

Clara Passaro Gonçalves Martins

“[…] não é demais recordar que, de uma à outra ponta da sua história, o pensamento europeu sempre teve tendência para abordar a identidade não em termos de pertença mútua (co-pertença) a um mesmo mundo, mas antes na relação do mesmo ao mesmo, de surgimento do ser e da sua manifestação no seu ser primeiro ou, ainda, no seu próprio espelho. Em contrapartida, interessa compreender que, como consequência directa desta lógica de autoficção, de autocontemplação e, sobretudo, de enclausuramento, o Negro e a raça têm significado, para os imaginários das sociedades europeias, a mesma coisa.” (Mbembe, 2014, p. 10)

Esta pesquisa de doutorado pretende estudar os processos de canonização de modelos ocidentais de corpo, que vem se firmando hegemonicamente ao longo dos anos através do estudo de três obras de grande notabilidade nacional e internacional que relacionam corpo e espaço dentro de seu campo de atuação. São concepções modernas de corpo, corporeidade, espaço e movimento que foram ganhando legitimidade e ampla disseminação dos discursos a ponto de se tornarem referências muito acessadas por estudantes, professores e profissionais no Brasil, na atualidade.

No campo da arquitetura, urbanismo e design, temos como objetos de estudos o Modulor, um “sistema de proporções humanas” criado por Le Corbusier como um instrumento unificador de medidas a ser utilizado universalmente em disputa com os tradicionais metro e polegadas. Estamos diante de uma ferramenta projetual criada por um arquiteto moderno mundialmente legitimado, reconhecido e afamado, e desenvolvida também através de dois livros: “O Modulor” (1950) e “Modulor 2” (1955).

Ainda no campo da arquitetura, a outra obra estudada é um manual de construção criado pelo arquiteto Ernst Neufert, sistematizado nas várias edições nacionais e internacionais do livro “A Arte de Projetar em Arquitetura”. NEUFERT, nome pelo qual ficou conhecida a obra devido sua popularidade, é um conjunto de normas e medidas de objetos e espaços sistematizados a partir das dimensões padronizadas do corpo humano.

Na dança, a proposta é estudar um sistema de notação de movimento conhecido como Kinetographie (Cinetografia) ou Labanotation (Labanotação); criados por Rudolf Laban (juntamente com F. C. Lawrence). Consiste em um método de análise e avaliação do emprego do esforço na realização do movimento, conhecido como Effort; ou a criação de coreografias para dança, teatro e ópera. Rudolf Laban é considerado um dos “fundadores” da Dança Moderna.

Estudar a criação e concepção dessas três referências que apresentam entre si uma proximidade geográfica e temporal (França e Alemanha na primeira metade do século XX) e também a circulação dessas ideias pioneiras na forte afirmação dos ideais modernos na arquitetura, no design, no urbanismo e na dança significa adentrar uma relevante problematização: a chegada de referências canônicas europeias no Brasil como ideias afirmadoras de um movimento nas artes notadamente europeizado, colonizador e excludente – assim como sua ampla adesão por aqui.

A maneira pela qual estas referências de corpo “chegam” apontam para um caminho já conhecido: a inclinação para mais uma sacralização de referências ocidentais que, na sua base, pontuam para a afirmação de um pensamento unitário em detrimento de uma diversidade de conhecimento assentado em outras lógicas de funcionamento. Estamos, todavia, atentos pela forma com a qual essa história tem sido contada. O Modulor teria sido a única representação dos corpos experimentada por Le Corbusier? Teria ele em suas manifestações artísticas experimentado outros desenhos de corpo como, por exemplo, em suas viagens para o Brasil e América Latina? A quais projetos político se vincula o desejo explícito nessa criação de unificação de medidas a partir de um corpo padrão masculino, europeu, branco, ocidental? Quais outras vozes antecederam ou eram simultâneas a esta voz que é, atualmente, bastante ecoada?

Neste sentido, a proposta inicial desta pesquisa consiste em aproximar-se destes notáveis estudos de caso com o justo cuidado de evitar operar imprudentemente uma forma solidificada de fazer pesquisa historiográfica que reaplica uma incabível heroificação destes exemplos e limpa-os de uma visão crítica e de uma complexificação das abordagens. Esta forma de fazer, dita hegemônica, caminha para a construção sólida de uma visão única e achatada dos processos históricos, consolidando rumos para escrita de uma história linear, coerente, coesa sobre processos de canonização dos conhecimentos de corpo na arquitetura.

Assim, adentramos o problema da construção da historicidade e optamos por mergulhar no processo inacabado e infinito de pesquisa e composição historiográfica que abraça a História a partir da “coexistência de tempos que existe em uma determinada época” (JACQUES, 2018, p.221), a partir da coexistência de vozes com abordagens distintas, contraditórias, que disputam entre si ou que defendem diversos pontos de vista ou simplesmente recriam e reelaboram abordagens existentes. Deixa de ser uma construção pedra sobre pedra para ser uma composição de danças apoiada no improviso, no imprevisto, na sobreposição de camadas rítmicas.

Assim, propomos uma escrita historiográfica que busca reaproximar retalhos do recorte realizado pela historiografia oficial, colocando lado a lado vozes e pensamentos dissonantes, trabalhar no limiar dos campos disciplinares estabelecidos, arriscar-se em um caráter exploratório experimental, balançando e desestabilizando afirmações de longa data que consolidam formas de fazer fechadas em suas próprias disciplinas.

Neste sentido, um desafio está colocado: Como desentrelaçar o tecido do pensamento descontínuo, paradoxal, simultâneo, imprevisível e abraçar seus desvios, fugas e escapes sem desviar totalmente ou desconsiderar a força dessa pressão hegemônica unificadora dos sentidos e refutador das diversidades?


REFERÊNCIAS

JACQUES, P. B. Pensar por Montagens. In: PEREIRA, M. S.; JACQUES, P. B. (Org.). Nebulosas do Pensamento Urbanístico: TOMO 1 – Modos de Pensar. Salvador: Edufba, 2018. p. 209-224.
LE CORBUSIER. O Modulor. Lisboa: Orfeu Negro, 2010. 267 p.
LE CORBUSIER. Modulor 2. Lisboa: Orfeu Negro, 2010. 366 p.
MBEMBE, A. Crítica da Razão Negra. Lisboa: Antígona Editores Refractários, 2014. 309 p. Tradução de Marta Lança. Disponível em: . Acesso em: 28 fev. 2019.


Palavras-chave: Cânones modernos. Modulor. Neufert. Laban.


Orientadora

Paola Berenstein Jacques

Coorientadora

Fabiana Dultra Britto

Período

2016-atual