Artigo

Corpos Nômades: o cortejo da festa da bandeira em ponta de areia

Fábio Macêdo Velame

Anais I CORPOCIDADE, Salvador, 2008

O presente trabalho trata o processo de reterritorialização do Culto aos Egum do Omo Ilê Aboulá (um candomblé de culto aos ancestrais, dos mortos ilustres de uma comunidade afro-brasileira) pelo povoado de Ponta de Areia, em Itaparica, Bahia. Essa reterritorialização se dá através do fluxo de corpos individuais de membros do culto reunidos em um corpo coletivo atualizado nos cortejos das festas da Bandeira (20/01) em Ponta de Areia. A festa da Bandeira constitui uma resistência cultural da tradição afro-brasileira, uma vez que o terreiro do Omo Ilê Aboulá sofreu diversos processos de desterritorializações em linhas de fuga provocados pelos agenciamentos e perseguições policiais na década de 1940 (quando o terreiro foi invadido, destruído e seus líderes foram presos), quando tiveram de se reterritotorializar em um outro lugar denominado de Barro Vermelho, e, posteriormente, pela especulação imobiliária nos anos de 1960 (quando foram desapropriados pelo capital imobiliário), quando tiveram de se retorritorializar mais uma vez em um outro lugar denominado de Alto do Bela Vista, ainda em Ponta de Areia. O terreiro tornou-se nômade em constantes processos de desterritorialização e reterritorialização exilando-se cada vez mais na periferia da cidade. Todavia, esse processo criou diversos lugares que conservaram reminiscências e vestígios do sagrado que são utilizados e cuidados pelos membros do culto aos Egum no cotidiano, no dia-a-dia e atinge o ápice nas festas do ciclo das águas (a festa da bandeira 20/01, a festa dos presentes a Iemanjá 02/02, e a festa da retirada da bandeira no dia 20/02). A festa da bandeira constitui uma retomada da cidade pelo culto e seus membros, de onde foram expulsos nos anos de 1940 e 1960, quando o cortejo que se inicia dentro do espaço sagrado do templo se irradia pela cidade passando por todos os espaços sagrados onde o terreiro esteve pela cidade anteriormente. O cortejo constrói expressões culturais singulares e únicas em percursos simbólicos repetindo nas diferenças rituais afro-brasileiros que ocorrem a mais de 80 anos pelas vielas, ruas, e praças do povoado. O cortejo em sua faceta corporal encarna as dimensões materiais e imateriais de uma cultura afro-brasielira singular, fruto de alianças de expectativas, subjetividades e percepções de seus membros preenchidas por experiências coletivas passadas de geração em geração pela tradição oral. O cortejo transforma-se em uma máquina de guerra nômade de ação contra o esquecimento, a indiferença, ao preconceito, ao racismo, ao agenciamento e conflitos com a especulação imobiliária, a igreja católica e notadamente contra os cultos petencostais. Constitui uma ferramenta de resistência tenaz lembrando a todos que o povoado foi fundado por eles e que também lhes pertence, que o povoado de Ponta de Areia em Itaparica é a terra dos Egum, seus ancestrais.


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